Em Abrantes, a primeira rádio pirata do país nasceu das cheias "e voltou a ser voz no mau tempo de fevereiro"

Criada durante as cheias de 1981, em Abrantes, a primeira rádio pirata portuguesa voltou a ter um papel essencial durante o mau tempo que atingiu o Médio Tejo em fevereiro. A Antena Livre continua a mostrar décadas depois a importância da informação de proximidade.
João Nogueira
João Nogueira Jornalista
18 mai. 2026, 17:08

Durante o mau tempo que atingiu o Médio Tejo a fevereiro deste ano, houve uma voz que voltou a ser essencial para muitas populações: a da rádio local Antena Livre. Em vários momentos de falhas, estradas cortadas e dificuldades nas comunicações, a informação de proximidade voltou a fazer a diferença, exatamente como já tinha acontecido há mais de 40 anos, quando nasceu aquela primeira rádio pirata portuguesa.

A história foi tema de conversa esta segunda-feira em Abrantes, durante a passagem da emissão do Conta Lá pela Estrada Nacional 2. Jerónimo Belo Jorge, ligado à criação da antiga Rádio Antena Livre desde a fundação, explicou que tudo começou em 1981, também por causa das cheias no Médio Tejo.

“As rádios nacionais chegavam até Santarém. Daí para montante não havia cobertura”, contou. Sem informação local e com populações isoladas na altura, um grupo "de dois malucos", como explicou, decidiu criar uma rádio para acompanhar a situação no terreno e avisar as pessoas sobre a subida dos caudais ou a necessidade de abandonar casas.

Na altura, a emissão era ilegal e a rádio passou anos “a fugir das autoridades”, até ser legalizada em 1989. Mas, segundo Jerónimo Belo Jorge, a missão nunca mudou: estar próxima das pessoas.

“É a informação local que interessa às populações”, disse, lembrando que, ainda hoje, em situações de emergência, as rádios locais continuam a ter um papel central. "A rádio não morre", acrescentou.

A verdade é que muitos dos problemas de isolamento sentidos nos anos 80 continuam presentes naquele território. Bruno Gomes, que é vice-presidente da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo e presidente da Câmara de Ferreira do Zêzere, admitiu que as tempestades recentes voltaram a expor fragilidades, sobretudo ao nível das telecomunicações.

“Ainda estamos com telecomunicações muito fracas”, afirmou, reconhecendo que a dispersão geográfica e a baixa densidade populacional acabam por deixar a região para segundo plano. “Cheguei a dizer na altura que estávamos a ser esquecidos”, revelou.

Além das comunicações, também os transportes públicos continuam a ser um desafio antigo para os municípios do Médio Tejo, que têm tentado trabalhar em conjunto para tornar a região mais atrativa e competitiva. É uma das principais missões daquele território, disse.

O que não parece estar tão longe ao nivel do investimento é o novo projeto para o polo universitário em Abrantes. Olinda Pereira, presidente daquela instituição explicou que o investimento de 6,5 milhões de euros pretende aumentar a capacidade para o dobro da atual da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes, que deverá receber mais de mil pessoas e novos cursos.