"Estamos talvez no pior momento destes 50 anos de democracia para que exista" um Museu da Resistência Antifascista no Porto

"Memória(s) à procura de lugar" é uma exposição temporária que pode ser vista até 2 de maio e que parte de dez objetos pessoais que pintam um retrato das décadas de luta pela liberdade no Porto, num projeto enquadrado no doutoramento de Luís Monteiro. O trabalho tem como base a criação de um museu de resistência antifascista na cidade, algo que considera estar mais distante do que nunca, em conversa com o Conta Lá.
Tiago Oliveira Jornalista
25 abr. 2026, 08:00

À entrada do do número 54 da Rua de Olivença, na cidade do Porto, há uma porta à direita que leva os visitantes da exposição temporária "Memória(s) à procura de lugar" a começarem uma viagem.

Efeméride a efeméride, há uma linha cronológica ao longo da parede que recorda datas importantes dos 48 anos de ditadura que entre 1926 e 1974 vigorou em Portugal, juntamente com episódios importantes de resistência na zona do grande Porto, como a greve dos mineiros de São Pedro da Cova a 27 de fevereiro de 1946 ou a gigantesca manifestação popular que recebeu Humberto Delgado, o 'General Sem Medo', no Porto a 14 de maio de 1958. É o prelúdio para dez objetos de dez pessoas, recolhidos por Luís Monteiro, e que contam parte de um mosaico imenso de histórias que dão corpo à luta antifascista na cidade.

"De que forma é que nós podemos preservar a memória de quem lutou contra o fascismo na cidade do Porto?" É a premissa da exposição, que tem como base o trabalho de doutoramento com "vista à criação de um futuro museu da resistência". Algo que "ainda não existe na cidade, daí a ideia da tese" e desta mostra como "uma espécie de um ensaio do que pode vir a ser não propriamente o museu, mas do que pode vir a ser uma lógica expositiva" dessa estrutura.

Patente no Lino Espaço Cultural - que durante anos foi conhecido como Edifício dos Candeeiros Lino, projetado entre 1951 e 1953 pelos arquitetos Arménio Losa e Cassiano Barbosa - até 2 de maio, a exposição resulta de um trabalho colaborativo com objetos que, avisa desde logo Luís Monteiro, "não têm grande valor histórico", mas "tem um valor emocional muito grande" que "permitem ser quase o alibi para que nós possamos contactar novamente com esse passado". E que fazem tanto sentido "nesse futuro museu" como "documentos e registos oficiais que estão hoje na Torre do Tombo", por exemplo.

Representatividade de género

Além dos objetos, cada pessoa gravou também um testemunho em vídeo, como uma forma de "mediação audiovisual em que cada uma delas conta em 5 minutos porque é que escolheu aquele objeto. E na verdade", elabora, "essa explicação é o contar de uma história, de um episódio específico, de uma memória concreta, do que é que era a vida nesse período". Por isso há uma televisão com um sofá à frente para que os visitantes se possam sentar enquanto observam os testemunhos.

A recolha funcionou quase numa lógica de "bola de neve", elabora, com cada pessoa a trazer outras pessoas e a pesquisa a acumular-se ao longo do tempo. E uma preocupação que destaca: "Do ponto de vista da própria metodologia de trabalho, garantir que existia, em primeiro lugar, uma representatividade de género, porque mesmo na questão da historiografia e desta memória relativa ao antifascismo, há evidentemente uma presença muito mais vincada do sexo masculino do que do sexo feminino". Houve por isso um "esforço em ter representatividade de género, porque houve um papel muito importante de mulheres durante essa luta antifascista que muitas das vezes não é contado".

A representatividade política também mereceu atenção. Na opinião de Luís Monteiro, "nós hoje não podemos fazer uma transposição direta das organizações onde essas pessoas pertenciam com aquilo que é hoje a realidade política ou partidária". Reconhecendo o papel "do PCP ao longo dos 48 anos [de ditadura] como a organização mais oleada e mais estruturada", houve também "uma tentativa de existir uma representatividade de outros grupos nessa organização clandestina da oposição". Mas mais do que isso, procurou-se alargar o leque de histórias, ou seja, incluir "pessoas com percursos de vida diferentes e que, independentemente de onde estavam organizadas, também tinham relações diferentes com a própria ditadura".

Acima de tudo, "as 10 pessoas que indicaram objetos — eventualmente à exceção do José Pacheco Pereira — são gente comum. Não foram os heróis da revolução, nem os heróis da resistência, estamos a falar de incógnitos". Para Luís Monteiro, "isso é muito importante porque a passagem de uma memória que não é obrigatoriamente de um herói também permite que alguém que não viveu aquele período consiga pôr-se nesse lugar".

Período de grande radicalização

É o caso de "pessoas do Teatro Experimental do Porto, que viram as suas peças proibidas, alguém que esteve clandestino, alguém que foi preso político, alguém que, apesar de não ter sido preso político, foi chamado à PIDE, alguém do movimento operário, alguém estudante". No fundo, "há uma tentativa de ter uma amostra de memórias no plural, daí também a ideia da exposição se chamar memórias dentro de parênteses, porque na verdade também não há uma memória única desse período. As pessoas tiveram vidas diferentes, apesar de terem esse em comum a luta antifascista", acredita.

Cédulas, fotografias, mensagens, há várias coisas para ver e que evocam episódios marcantes e outros menos conhecidos da luta antifascista no Porto. Sempre com risco elevado, de cadeia ou tortura, e com recurso necessário a reproduções clandestinas a partir de mecanismos como era a duplicadora Gestetner, espécie de impressora muito utilizada na época em que, com uma base de stencil, permitia mecanicamente produzir várias cópias. Para quem não conhece, há uma funcional na exposição, indicada por Manuela Marques Monteiro.

Foi num aparelho desses que se produziu, para distribuição, um comunicado que pode ser lido na exposição, partilhado por Manuel Matos Fernandes, "engenheiro civil da FEUP, na altura estudante onde hoje é a reitoria" da Universidade do Porto. O texto apelava a um boicote ao I Festival Internacional de Coros Universitários de 1973, que "juntava um conjunto de coros não só nacionais com ligações diretíssimas ao regime, mas também coros de ex-colónias e de países em ditadura ou em apartheid". 

Naquele que já era um "período de grande radicalização contra o regime, houve um boicote brutal organizado por muitos estudantes da universidade para que esse festival não acontecesse. Mais de 200 foram detidos nesse dia e parte substancial foram presos", com a maioria a ver "depois o seu percurso escolar ser afetado brutalmente". Por exemplo, houve "pessoas que ficaram suspensas até ao pós-25 de Abril, perderam as poucas bolsas de estudo que havia na altura e ficaram proibidas de voltar a inscrever-se no ensino superior". Trata-se de um "episódio particular muito interessante da vida da Universidade do Porto que quase nunca é falado", sobretudo porque "nós temos sempre uma ideia muito limpa da história da universidade". Mas "enquanto comunidade também teve um papel contra a ditadura muito importante".

IA própria

Compreender a luta antifascista passa também por entender os mecanismos de repressão da ditadura e é por isso que a acompanhar a exposição encontramos uma instalação multimédia que replica o funcionamento do famigerado lápis azul, vulgo, a censura. Como funciona? Através de um dispositivo digital em que os visitantes "podem escrever o que entenderem" e o texto a ser analisado por "uma inteligência artificial [IA] produzida" no local. Ou seja, as palavras não vão para ferramentas "como o Gemini ou o Chat GPT", mas sim para uma IA interna, com servidor no local, desenvolvida e montada pelos engenheiros Hugo Guia e Gonçalo Ferreira.

"Quando alguém escreve lá um texto, esse computador avalia, analisa e retira automaticamente as palavras que eram proibidas na altura e produz um relatório a dizer se a censura permitiria ou não permitiria a publicação desse texto". Com Luís Monteiro a deixar uma ressalva: "É evidente que como qualquer IA, tal como aos humanos, ele também tem falhas, mas esta instalação tem permitido uma dinâmica interessante na exposição, principalmente com gerações mais novas, que nunca lidaram diretamente com um mecanismo onde o seu texto é proíbido de ser publicado". Algo que também permite uma reflexão "interessante sobre como hoje também temos imposições quase invisíveis e silenciosas daquilo que consumimos, o que é que nos aparece nas redes ou o que é que significa um algoritmo", entre outras coisas.

É uma forma de aproximar as pessoas mais novas da memória histórica desse período, até porque "os jovens que hoje estudam no ensino básico ou secundário eventualmente já não têm sequer avós que tenham nascido antes do 25 de Abril". As pessoas que indicaram os objetos em exposição "já são a última geração viva da luta contra o fascismo" e sentem urgência em que sua voz seja preservada e ouvida, quando estamos perante "uma tentativa por parte da extrema-direita de reescrita dessa história".

Na "guerra cultural" que hoje domina a atualidade, uma das prioridades "passa por revisitar o passado, desvalorizando o que foram os 48 anos de ditadura e diabolizando a revolução dos cravos". Um processo que, segundo Luís Monteiro, "está a ser feito com grande capacidade de comunicação, seja em alguns órgãos de comunicação mais tradicionais, mas acima de tudo em novos meios como as redes sociais, o YouTube e o TikTok". Apesar de algum possível desligamento dos mais novos, o interesse pela luta contra a ditadura ainda subsiste, com as visitas à exposição a virem de um "público muito diversificado do ponto de vista de idades". Seja por "contactos institucionais com escolas, ou por conta própria", já muitos jovens foram conhecer os objetos expostos.

Há também "uma geração mais velha que entra na exposição, sabe exatamente o que é que aconteceu e ajuda até a complementar histórias". Voltamos ao caso do festival de coros, com Luís Monteiro a revelar que já recebeu "mais de 10 pessoas" a partilharem que também estiveram presas na PIDE depois desse protesto.

Museu da vergonha

E é precisamente nas antigas instalações da PIDE na cidade do Porto, onde atualmente se encontra o Museu Militar, na rua do Heroísmo, que se exige a criação de um Museu da Resistência Antifascista permanente e que faça justiça a estas histórias de luta. Trata-se de "uma reivindicação que existe já desde o dia 27 de abril de 1974", contextualiza Luís Monteiro. Nesse dia, "há um cronista do jornal A República que escreve que 'o edifício onde funcionou a PIDE no Porto devia um dia ser o museu da vergonha do que foi o fascismo em Portugal'". Existem "outros equipamentos na cidade onde o exército pode instalar" esse espaço, que agora "está num lugar que não lhe é devido". Falamos daquele que "é o lugar simbólico da luta contra a ditadura" na cidade. "Todas as manifestações do 25 de Abril no Porto partem dali por alguma razão", lembra.

Neste período, "já houve um conjunto de tentativas e oportunidades perdidas por parte do poder político. Em 2019 foi aprovada uma resolução no parlamento nesse sentido. Há cerca de meio ano voltou a ser aprovada". Já "na autarquia do Porto foram apresentadas também recomendações ao executivo. A URAP [União de Resistentes Antifascistas Portugueses] e o movimento 'Não Apaguem a Memória' têm há décadas falado disto".

Mais recentemente, foi criada igualmente "uma comissão promotora desse museu aqui na cidade" de que Luís Monteiro também faz parte. Com a consciência que "os ventos agora estão a desfavor. Temos a retirada do financiamento para o museu sobre o 25 de Abril e vamos assistindo a um movimento internacional de duvidar da importância da democracia". Em suma, "estamos talvez no pior momento destes 50 anos de democracia para que este museu exista. Mas não é por isso que deixamos de falar do tema. Pelo contrário, ele é mais urgente agora do que era há 10 ou 20 anos para transportar consigo uma missão de defesa dessas conquistas", sustenta.

Enquanto isso, ainda há tempo para recordar, aprender ou refletir para quem for ao Lino Espaço Cultural visitar o "Memória(s) à procura de lugar", com programação em paralelo a acompanhar a exposição. Hoje, 25 de abril, haverá uma oficina de cartazes para crianças a partir das 11h e à tarde, após a tradicional manifestação, vai haver uma festa da liberdade às 18h30 com concertos de Fred Menos, Slobber e Chiné. Amanhã haverá uma sessão de cinema sobre memórias de Gaza com a realizadora Balolas Carvalho e o filósofo Pedro Bismark. Já no encerramento, haverá uma conversa entre professor e historiador Fernando Rosas e o jornalista Francisco David Ferreira sobre como é que o fascismo está a voltar no século XXI. Assim não se preserve o legado de quem lutou por essa liberdade.