Festival Terras sem Sombra celebra o Alentejo com música, sem esquecer o património e o mundo rural

Criado para colmatar a ausência de programação musical na região, o festival atravessa o Alentejo durante quase todo o ano. A 22º edição une “Música e Biosfera”, não esquecendo o património material e imaterial. 
 
Joana Amarante
Joana Amarante Jornalista
21 fev. 2026, 08:00

O Festival Terras Sem Sombra surgiu há 22 anos como uma iniciativa da sociedade civil e com o grande objetivo de “vencer a grande distância que há entre os territórios de baixa densidade e os grandes centros”. Quem o diz é José António Falcão, o diretor geral do projeto, em entrevista ao Conta Lá. “Nós não queríamos continuar a ser cidadãos de segunda condição”, acrescenta.

O festival, que passa pelos quatro distritos alentejanos, mas também pela Lezíria do Tejo, oferece não só uma “temporada musical”, como atividades relacionadas “com património cultural e com a salvaguarda da biodiversidade”, explica o responsável.

“Grande parte do nosso trabalho decorre num mundo rural e está ao serviço do mundo rural”.

Este ano, como se celebra igualmente o V Centenário do Nascimento de Luís de Camões, nasce o mote “Alegres Campos, Verdes Arvoredos: Música e Biosfera (Da Idade Média à Criação Contemporânea)”. José António Falcão lembra que “Camões trata bastante do Alentejo e do Ribatejo, sentimos que era justificado assinalá-lo” e explica que o fio condutor da temática de 2026 “introduz bem a ligação entre a arte e, particularmente, a música e a natureza”.

“É a possibilidade de conhecer de perto aspetos, quer do património cultural e natural, que passam despercebidos ou não são acessíveis aos visitantes e às próprias comunidades”.

O “Festival do Alentejo” engloba três dimensões: Música, Património e Biodiversidade. Na vasta programação deste evento, que decorre entre fevereiro e dezembro, há concertos, atividades relacionadas com património arquitetónico, artístico, imaterial ou intangível, por exemplo, com as lendas e tradições, com os usos e costumes. Mas há também “um aproveitamento sustentável dos recursos locais, visto que damos uma grande importância à agricultura. Sem a agricultura, o território não é sustentável”, adianta o diretor.

Todas as atividades do Festival Terras Sem Sombra são de acesso livre e gratuito, algumas com reserva antecipada. 

Os eventos arrancam já no fim do mês, no concelho de Arronches. A localidade transfronteiriça tem-se destacado “pela qualidade dos seus valores patrimoniais e ambientais. Arronches está impecável. É um exemplo”, sublinha António José Falcão. 

A nível musical, no dia 28 de fevereiro há espetáculo do grupo Zarebski Piano Duo, da Polónia, intitulado “Um Piano, Quatro Mãos: Obras de compositoras Polacas e Portuguesas dos séculos XX/XXI”. São dois pianistas, que não só vão tocar apenas peças de mulheres compositoras, como vão usar um só instrumento. 

 

“Vamos ter um concerto a quatro mãos, que é uma coisa de uma dificuldade técnica muito grande. Quisemos começar mesmo com o pé direito com um grande espetáculo.”

Em relação ao património cultural, o local eleito é Marco, uma pequena aldeia na freguesia de Esperança. "Metade é espanhola, metade é portuguesa. E tem a mais pequena ponte internacional do mundo”. A ponte de seis metros é o local a ser visitado, pelo aspeto romântico, e por ter sido um ponto de contrabando, a temática abordada nesse dia e de nome “Raia, identidades e contrabando: a Fronteira Invisível”. Estará presente "uma grande especialista, a doutora Dulce Simões, da Universidade Nova, um guarda fiscal, um contrabandista, e pessoas de Portugal e Espanha que nos vão contar as suas experiências”. 

Já no dia 1 de março, o tema é igualmente importante, as mulheres na agricultura. Como o próprio nome da atividade indica elas são as “Guardiãs do Futuro Comum da Humanidade”. Nesse dia será visitada uma herdade gerida por uma empresária agrícola e vão estar também presentes duas outras agricultoras que se dedicam à produção de gado. “Nós vamos mostrar como é que as mulheres têm um papel fundamental como guardiãs do futuro”, refere o diretor.

O fim do mês de março é marcado pela entrega do Prémio Internacional Terras Sem Sombra, em Santiago de Cacém.

Entre fevereiro e dezembro, só agosto fica de fora. Aqui, pretende-se valorizar os meses em que o fluxo turístico não é tão elevado. Nos restantes, diversos concelhos alentejanos festejam o que de melhor têm.

A organização afirma que pretende combater preconceitos que existem sobre o Alentejo. “Queremos mostrar a região como ela é, genuína e verdadeira. É de facto uma área gigantesca, mas não muito povoada e em muitos quadrantes, pouco conhecida”, indica o responsável.

Por isso, há uma necessidade de internacionalizar o Alentejo. Todos os anos, de forma a dar a conhecer o território, há um país convidado. Em 2026, o selecionado foi a Polónia.

É uma forma de levar os alentejanos a viajar sem sair da própria casa, mas é também uma forma de replicar alguns aspetos de uma cultura que sendo tão diferente pode ser tão parecida, como explica o diretor : “É apresentar de cada país uma panorâmica da sua música, mas também da sua cultura, da sua história e da sua geografia. Nós queremos que as pessoas do Alentejo e as pessoas que o visitam fiquem a saber um pouco mais sobre a Polónia, até porque são países que têm experiências muito interessantes de dinamização em territórios de baixa densidade”.

Nesta vertente, artistas nacionais e locais não faltarão. Apesar do âmbito do espetáculo ser o da música erudita, há espaço para o Cante Alentejano, que é motivo de orgulho para a região. E como a vizinha Espanha também faz parte deste evento, haverá ainda um encontro deste património musical com o Canto das Astúrias, em Ribera de Arriba. 

“Quando o Festival Terras Sem Sombra passa por uma localidade, e nós não somos um grande festival de rock, nota-se uma dinamização da vida local”, reitera José António Falcão.

José António Falcão explica que a comunidade está largamente envolvida, seja através das visitas que “sempre que possível, são as próprias pessoas das terras que são os nossos guias”, seja pelas parcerias com os municípios, que ajudam a fornecer os produtos locais.

“Hoje, só para ter uma noção, são quase 200 pessoas que, um pouco por todo o Alentejo, são as nossas antenas locais”, conclui.

A expectativa de participantes, no Festival Terras sem Sombra, em 2026, é de 4500 pessoas.