Fim de ciclo nas autarquias: ex-presidentes dividem-se entre reformas e novos cargos
Ex-presidentes de câmaras municipais que deixaram o cargo nas últimas autárquicas, depois de cumprirem três mandatos consecutivos, enveredaram por outros cargos em instituições oficiais, reformaram-se ou voltaram aos empregos que tinham antes da política.
O anterior presidente da Câmara Municipal de Palmela, no distrito de Setúbal, Álvaro Amaro, eleito pela CDU, é um dos quase 90 autarcas que não podiam recandidatar-se ao cargo em 2025 devido à lei que limita a três os mandatos consecutivos que um presidente de Câmara pode exercer no mesmo município.
Álvaro Amaro, 64 anos, preparava-se para regressar ao ensino, profissão que já abraçava antes de ter o seu tempo ocupado a 100% na vida política, mas acabou escolhido pelos nove municípios da região para ser primeiro secretário da nova Comunidade Intermunicipal (CIM) da Península de Setúbal.
É na instalação desta nova entidade regional, com um papel decisivo na definição de prioridades para a gestão de fundos comunitários da Península de Setúbal, que tem trabalhado nos últimos tempos.
“Tem sido uma tarefa exigente. É como instalar uma autarquia, ou um conjunto de autarquias, a partir do zero”, disse à Lusa , reconhecendo que nem o ensino, nem a música, ‘hobby’ de longa data deste também autor e compositor, impediram um rápido regresso à vida política.
Tal como Álvaro Amaro, outros presidentes que deixaram os municípios em outubro de 2025 por limitação de mandatos assumiram entretanto cargos oficiais.
Rui Moreira, ex-presidente da Câmara do Porto (independente), iniciou funções em 07 de abril como embaixador de Portugal na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), por nomeação do Governo, que também escolheu Paulo Fernandes (PSD), ex-presidente da Câmara do Fundão, para ser coordenador da Estrutura de Missão para recuperação das áreas atingidas pelo mau tempo do início deste ano.
Já o histórico autarca de Aveiro Ribau Esteves (PSD) foi eleito presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC), cargo que desempenha desde fevereiro, enquanto José Alberto Quintino, anterior presidente da Câmara de Sobral de Monte Agraço, que nas últimas autárquicas deixou de ser um bastião comunista, é atualmente funcionário da Agência de Energia e Ambiente do Oeste.
O social-democrata Carlos Carreiras, 74 anos, pediu a reforma, após três mandatos como presidente da Câmara de Cascais, com maioria absoluta, depois de “uma carreira contributiva muito grande” - pois começou a trabalhar aos 16 anos - e para “não desestabilizar financeiramente a família”.
Carreiras decidiu contar a experiência autárquica no livro “Prestar Contas”, de Inês Serra Lopes, lançado recentemente, e foi mandatário de candidatura do seu ex-vice-presidente à autarquia.
O ex-autarca disse à Lusa que “nunca se deve dizer nunca”, mas está “muito afastado da política nacional e ainda mais da autárquica”, até por ter a prova de que “a política não faz bem à saúde e à qualidade de vida”.
Continua a colaborar ‘pro bono’ com instituições sociais no município e está “a acompanhar o lançamento de três ou quatro projetos”, ligados à Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) e ao Brasil, além de “algumas iniciativas” em Portugal “relacionadas com o Campeonato do Mundo de Futebol de 2030”, coorganizado com Espanha e Marrocos.
“Quando estes projetos arrancarem, suspendo a reforma”, salientou.
Basílio Horta, 82 anos, eleito como independente pelo PS presidente da Câmara de Sintra em 2013, 2017 e 2021, afirmou à Lusa que está reformado e “completamente fora” da política ativa, apesar de ter apoiado e integrado a comissão de honra da candidatura de António José Seguro nas recentes eleições presidenciais.
O antigo deputado à Constituinte e ministro de vários Governos contou que reparte o tempo extra a ler e passear, recuperado de uma recente intervenção cirúrgica para substituir uma válvula cardíaca, o que obriga a um ritmo mais calmo.
Embora reformado, o antigo militante e fundador do CDS preside, desde dezembro de 2025, à Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados.
O ex-autarca, que começou a trabalhar aos 22 anos, como delegado do procurador da República interino, falou com entusiasmo da necessidade de defesa dos direitos humanos, que, apesar de serem “a base de uma sociedade regular e onde se possa viver em paz”, estão “a ser desprezados” na América e no mundo, mas também em Portugal, com a proposta de lei laboral e a “política de saúde”, sem ter “em conta direitos humanos básicos”.
Cerca de seis meses após ter deixado a Câmara de Borba (Évora), devido à limitação de mandatos, também o ex-presidente António Anselmo, de 69 anos, está reformado, afastado da política e dedicado à família.
Outros ex-presidentes voltaram às profissões que tinham antes de enveredarem na política autárquica, como Ricardo Rio (PSD), que deixou a Câmara de Braga para voltar a ser consultor e docente universitário; Nuno Mascarenhas (PS), que saiu de Sines para regressar às funções na área financeira na Administração dos Portos de Sines e do Algarve; e de José Pio, que, apesar de já se poder reformar, voltou a trabalhar na Autoridade Tributária de Gavião, o bastião socialista onde foi presidente por três mandatos consecutivos.
Rogério Bacalhau (PSD) deixou a Câmara de Faro e ainda foi apontado para funções na administração da Águas do Algarve, mas regressou ao ensino, e o ex-presidente da Câmara de Gaia Eduardo Vítor Rodrigues (PS), condenado a perda de mandato por peculato de uso, regressou à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde é professor auxiliar de Sociologia, e aguarda julgamento por alegadamente ter comprado bilhetes para assistir a jogos da Liga dos Campeões com dinheiro da autarquia. À data da acusação (2024), garantiu ter sido uma compra “regular e legal”.
O antigo presidente de Évora Carlos Pinto de Sá (eleito pela CDU) é agora presidente do município vizinho de Montemor-o-Novo, eleito nas eleições autárquicas de outubro de 2025, tendo regressado a um cargo que já tinha ocupado entre 1994 e 2012.
Já Vítor Proença (também autarca pela CDU) disse à Lusa estar atualmente de férias e dedicado à família, depois de ter presidido às Câmaras de Santiago do Cacém e de Alcácer do Sal, ambas no distrito de Setúbal, ao longo de 24 anos, e de ter renunciado ao cargo de vereador para o qual foi eleito quando tentou voltar a Santiago do Cacém.