Gaiteiro de Bravães quer recuperar o Minho antigo

Entre gaitas de foles, bombos, cavaquinhos e seixos, Rafael Freitas é um dos rostos mais visíveis da recuperação das tradições musicais do Minho. Conhecido como “o gaiteiro de Bravães”, aos 35 anos, o arquiteto, músico e artesão quer voltar a unir as comunidades através dos sons.
Pedro Marcos Editor de imagem
Ana Rita Cristovão
Ana Rita Cristovão Jornalista
João Lacerda
02 abr. 2026, 08:00

“O contributo que queremos deixar é remar contra esta amnésia coletiva em que de repente as pessoas não sabem o que é o Minho, a tradição”, admite ao Conta Lá Rafael Freitas. Conhecido como “o gaiteiro de Bravães”, nome da freguesia onde a tradição renasce, é o responsável por trazer de volta uma cultura musical que já só vivia na memória coletiva. 

“A gaita de foles associamos às ilhas britânicas, não associamos à cultura portuguesa, no entanto é dos instrumentos mais antigos do nosso território. É uma tradição que está na memória coletiva mas foi sendo perdida e o que estamos a tentar fazer é recuperar o fabrico artesanal, senão ia acabar por ser perder”, refere.

Arquiteto de profissão, Rafael Freitas alia a modernidade à tradição para construir a gaitas de foles. Um instrumento que foi o ponto de partida para passar o testemunho aos mais novos, a quem hoje leciona aulas deste instrumento. Mas a “curiosidade de saber o que seria uma festa minhota há 200 anos” levou-o mais longe. Em conjunto com a mulher, Mariana Campos, é responsável pelo redescobrir dos instrumentos musicais de outros tempos.

“Eu tinha uma concertina muito cara, porque era o que toda a gente queria, e uma altura enervei-me e fui vendê-la. Em troca, trouxe vários instrumentos e percebi que o Minho era toda aquela diversidade, não só a concertina, e desde aí tem sido uma vida inteira a tentar construir instrumentos que encontramos em fotografias, em textos… o mal disto é que começamos a apaixonar-nos por tudo”, confessa.

Com o objetivo de valorizar as tradições e a identidade cultural minhota, Rafael Freitas admite que o grande propósito é o de voltar a criar elos entre a comunidade. “O que interessa mais na música é este lado social, tem um propósito de ligação comunitária e eu vi nos últimos anos acontecer uma transformação na organização das nossas aldeias, ficámos sem escola primária, sem conhecer os vizinhos, e a música acabava por ser a única maneira de funcionar de forma coletiva”, relembra.

Entre a arquitetura, a construção de gaite de foles e a descoberta de instrumentos tradicionais, o trabalho começa a dar frutos e a enraizar-se no território, com o “aparecimento de gaitas de foles em grupos folclóricos, jovens que têm interesse em tocar em eventos da escola, já está a começar a enraizar-se”, conclui.