Há mais de 30 anos que milhares de manjericos saem da produção de Joaquim para perfumar o país: "Se produzisse mais, vendia mais"

Em Pedrouços, na Maia, Joaquim Araújo dedica-se há mais de 30 anos à produção de manjericos, um dos maiores símbolos dos Santos Populares. Este ano, da sua exploração saíram cerca de 50 mil exemplares para todo o país. O Conta Lá visitou uma das maiores produções da região e acompanhou os últimos dias de trabalho antes do São João.
João Nogueira
João Nogueira Jornalista
21 jun. 2026, 08:00

O cheiro chega mesmo antes de os vermos. Mistura-se com o calor que marca os primeiros dias de verão e anuncia aquilo que, para muitos portugueses, é sinal de que os santos populares estão à porta. Em Pedrouços, na Maia, milhares de manjericos cresceram alinhados em estufas e terrenos que, durante semanas, se transformam num autêntico centro de abastecimento da tradição. A poucos dias do São João, já restam poucos para desenterrar e preparam-se encomendas para transportar.

É a partir dos terrenos de Joaquim Araújo, em Pedrouços, mesmo a ladear com o Hospital São João, que saem dezenas de milhares de vasos que vão parar a supermercados, hospitais, empresas, festas populares e casas espalhadas de norte a sul do país.

Quando o Conta Lá chegou à exploração de Joaquim Araújo, o cenário já não era o mesmo dos dias anteriores. As estruturas, que estiveram completamente preenchidas de verde, estão marcadas agora pelos espaços vazios. E a poucos dias do São João, os manjericos seguem viagem a um ritmo acelerado. Ali trabalha-se até ao último dia dos santos populares.

"Estava tudo cheio. Não se podia entrar aqui", recorda Joaquim Araújo, apontando para os locais onde, até há pouco tempo, se acumulavam milhares de vasos prontos para entrega.

Há mais de três décadas que Joaquim Araújo faz do manjerico a sua principal cultura nesta época do ano. Quase com 70 anos, é um dos maiores produtores da região e uma referência num negócio que ajudou a consolidar ao longo dos últimos 30 anos.

Este ano, a produção rondou os 50 mil exemplares: "O ano foi bom. As chuvas vieram na altura certa, antes das plantações. A terra ficou muito boa. Depois veio o sol e as plantas cresceram com todo o vigor".

Ao contrário do que podia ter acontecido, as tempestades registadas no início do ano não causaram impacto nas produções que são cuidadosamente planeadas e começam apenas no final de fevereiro.

A partir daí, seguem-se várias fases de plantação, distribuídas ao longo de semanas. O motivo é garantir diferentes tamanhos para responder às necessidades do mercado: "Se plantássemos tudo ao mesmo tempo, ficava tudo do mesmo tamanho. Fazemos várias plantações para termos sempre manjericos pequenos, médios e grandes".

Os mais pequenos são os preferidos nas primeiras semanas da campanha. Já os manjericos maiores ganham protagonismo à medida que se aproximam as festas, os arraiais e os convívios típicos dos Santos Populares. Ao nível dos tamanhos, podem variar entre os 10 e os 25 centímetros de diâmetro, mas "há os que ficam ainda maiores".

Os manjericos são uma marca dos santos populares que, nem com o passar dos anos, perde a força: "Os clientes são os mesmos e querem sempre mais. Se produzisse mais, vendia mais", explicou o produtor, confessando que em alguns casos, compra de outros produtores para revender, porque a própria produção "já nem chega".

Grande parte da produção segue para grandes superfícies comerciais. O mercado nacional continua a absorver praticamente tudo o que é produzido: "Vai para todo o país. Algarve, Alentejo, Centro, Norte. Lisboa consome muito, muito mesmo".

E há destinos que mostram bem a dimensão da operação. Só este ano, mais de um milhar de manjericos produzidos em Pedrouços serão entregues ao Hospital de São João, no Porto.

 

"Trabalhamos das seis da manhã às dez da noite"

Apesar da dimensão da produção, o processo mantém-se essencialmente artesanal. Cada planta passa por várias mãos ao longo do seu crescimento. Desde o arranque dos pés até à colocação nos vasos de barro, não existem máquinas capazes de substituir totalmente o trabalho humano.

Na exploração chegam a trabalhar cerca de duas dezenas de pessoas. Entre elas estão Emília e Madalena, trabalhadoras que há vários anos ajudam a preparar os manjericos que vão chegar às mãos dos consumidores. "Trabalhamos das seis da manhã às dez da noite", contam.

No dia em que esta reportagem foi feita, a exploração recebeu também uma visita especial. Os alunos da Escola Magia do Estudo, da Maia, percorreram os terrenos de produção para conhecer de perto o percurso do manjerico, desde a plantação até à venda.

Entre perguntas e explicações, ficam a conhecer os mitos e curiosidades das festividades e dos manjericos. E também da história de Joaquim Araújo que começou quase por acaso.

Antes de se dedicar à produção da planta, esteve ligado à pecuária leiteira. O contacto com a agricultura era antigo, mas o mundo dos manjericos surgiu através de um desafio lançado por um amigo: "Ofereceu-me cerca de cem pés. Comecei a experimentar, ganhei gosto e fui crescendo".

"Produzir é importante. O mais difícil é comercializar. Antes de produzir, tinha de saber se conseguia vender", explicou o produtor, lembrando que o crescimento foi gradual. Primeiro centenas, depois milhares e, hoje, dezenas de milhares de plantas por ano.

Ao longo desse percurso, assistiu também à transformação do mercado: "Quando comecei a produzir em quantidade, os manjericos não estavam nos hipermercados. Hoje encontram-se em todo o lado."

 

Cheirar o manjerico é mito ou verdade?

Entre as muitas tradições associadas à planta, há uma que continua a dividir opiniões: afinal, pode ou não pode cheirar-se o manjerico?

Joaquim Araújo sorri perante a pergunta, habituado a ouvi-la todos os anos: "É um mito". O produtor garante que o problema nunca esteve no nariz de quem o cheira, mas sim na forma como a planta é tratada; "O importante é ter luz, água e boa ventilação".

Com os cuidados certos, assegura, o manjerico pode sobreviver muito para além das festas: "Até ao Natal dura perfeitamente. E até mais".

Enquanto fala, os últimos manjericos continuam a sair da exploração. Até à noite de São João, o trabalho não vai parar e continuam a ser enviados para quem precisa "de última hora".