Linguista defende intercompreensão para transformar ensino do português em contextos plurilingues

A linguista portuguesa Maria Helena Araújo e Sá defendeu hoje, em Maputo, que a intercompreensão pode transformar o ensino do português em países plurilingues como Moçambique, ao valorizar a diversidade linguística e os repertórios reais dos falantes.
Agência Lusa
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21 mai. 2026, 12:51

 A linguista portuguesa Maria Araújo e Sá destacou hoje o papel da intercompreensão na transformação do ensino do português em países plurilingues como Moçambique, defendendo uma abordagem que desafia modelos tradicionais e valoriza a diversidade linguística.

Segundo a professora catedrática da Universidade de Aveiro, a intercompreensão assenta numa prática corrente de comunicação em que os interlocutores usam as suas próprias línguas - ou transitam entre elas - procurando compreender os outros, sobretudo em contextos de contacto linguístico, com maior eficácia entre línguas próximas e com elevado grau de reciprocidade.

Falando em Maputo, no segundo dia do congresso internacional “Ensino de Português na atualidade: géneros, interculturalidade e tecnologias digitais”, a investigadora Maria Helena Araújo e Sá considerou que este modelo ganha especial relevância em sociedades marcadas pelo multilinguismo, como a moçambicana e angolana, ao permitir reconhecer e integrar os repertórios linguísticos reais dos falantes.

“É um conceito que se tem desenvolvido como uma resposta ao crescimento dos contextos multilingues e multiculturais e, em particular, como uma resposta educativa aos movimentos crescentes de mobilidade e de contacto de línguas, físicos e virtuais, que hoje vivemos”, afirmou.

Moçambique reconhece pelo menos 23 línguas, incluindo o português, mas linguistas moçambicanos admitem que outras línguas nacionais não estão a ser registadas.

Maria Helena Araújo e Sá destacou que, a partir de exemplos observados em contextos como o de Maputo, capital moçambicana, a intercompreensão permite evidenciar a complexidade, a pluralidade e as tensões entre línguas e culturas no quotidiano, ultrapassando visões mais normativas e homogéneas da língua e reconhecendo a diversidade real dos espaços linguísticos moçambicanos.

"Estes usos espontâneos das línguas em intercompreensão levam-nos a compreender que as línguas são, antes de tudo, não sistemas, mas territórios habitados por comunidades e que essas comunidades circulam e contactam e essas comunidades têm os seus repertórios, os seus saberes, as suas experiências próprias que colocam em interação ou em intercompreensão", disse a professora.

Tendo em conta o seu papel, a investigadora afirmou reconhecer na prática comunicativa um forte potencial transformador - simultaneamente disruptivo -, defendendo-a como um gesto de hospitalidade linguística que promove abertura e acolhimento entre diferentes línguas e culturas: "Esta ideia de hospitalidade relaciona-se com a ideia de que a intercompreensão convida a acolher as línguas dos outros. O que significa acolher os outros".

Associou ainda a intercompreensão a uma perspetiva de "plurilinguismo insurgente", centrada na justiça social, na equidade e na valorização de vozes marginalizadas, sublinhando que esta abordagem pode contribuir para reduzir tensões entre línguas e promover uma transformação democrática da escola.