Livro inédito de poemas de António Lobo Antunes vai ser publicado em abril
“Poemas” é o título do livro, em que a Dom Quixote estava a trabalhar, e que acaba por não ser publicado ainda em vida do escritor, um dos maiores nomes da literatura portuguesa desde a segunda metade do século XX.
Um livro inédito de poemas de António Lobo Antunes, que o escritor que sempre lamentou não ter sido poeta foi escrevendo ao longo da vida, vai ser publicado em abril, anunciou hoje a sua editora, em comunicado.
“Poemas” é o título deste livro, em que a Dom Quixote estava a trabalhar, e que acaba por não ser publicado ainda em vida do escritor, um dos maiores nomes da literatura portuguesa desde a segunda metade do século XX, que morreu hoje aos 83 anos.
A editora, que tem publicado toda a sua obra, “anuncia que publicará já em abril um inédito, não de prosa, o seu género favorito, mas de poesia, onde estarão reunidos os poemas que António Lobo Antunes foi escrevendo ao longo da sua vida. Ele que sempre lamentou não ter sido poeta”.
Esta publicação insere-se no âmbito do compromisso da Dom Quixote em continuar a trabalhar e a promover uma obra, “cuja importância ultrapassou fronteiras, premiada e distinguida um pouco por todo o mundo”.
Classificando António Lobo Antunes como um “nome maior da literatura portuguesa, autor de romances que ficarão para sempre na memória”, a editora despediu-se do escritor “que dedicou toda a sua vida aos livros e à literatura, prestando-lhe a devida e mais que merecida homenagem”.
“Foi a partir do olhar atento de António Lobo Antunes que nasceram alguns dos mais importantes romances da literatura portuguesa contemporânea, seja sobre a guerra colonial, onde esteve presente, seja sobre o Portugal que se lhe seguiu, tão bem retratado nas páginas dos seus livros”, destaca a editora, no comunicado.
Publicado e traduzido em praticamente todo o mundo, múltiplas vezes colocado na lista de candidatos ao Prémio Nobel de Literatura, António Lobo Antunes deixa “um vazio que muito dificilmente voltará a ser preenchido”, acrescenta.
“Ficam hoje mais pobres a cultura e a literatura portuguesas. Ficamos mais pobres todos nós. Persistirá, forte e desafiante, a sua palavra”, sublinha a editora.
Editora lembra escritor que não gostava de ser contrariado e merecia o Nobel
A editora de António Lobo Antunes, Maria da Piedade Ferreira, recorda o escritor que “não gostava de ser contrariado”, escrevia sempre à mão e lhe entregava os manuscritos, e que morreu sem o “merecido” Nobel, deixando uma obra fundamental.
“Fomos muito amigos, de vez em quando discutíamos, porque ele era muito seguro naquilo que fazia, não gostava muito que contradissessem” quando era corrigido em alguma coisa, como uma data, por exemplo, contou à Lusa aquela que ao longo de 15 anos foi a editora de um dos maiores nomes da literatura portuguesa desde a segunda metade do século XX, que morreu hoje aos 83 anos.
Primeiro ficava zangado, depois acabava por lhe dar razão, recordou, sublinhando, contudo que tinham “uma relação de grande amizade e de respeito mútuo”, que correu sempre tudo “muito bem” e que gostou muito de trabalhar com ele.
“Para mim foi uma honra trabalhar com ele. A obra dele foi importantíssima porque rompeu com um certo tipo de literatura neorrealista, que era da época, muito política, e passou para uma literatura da vida das pessoas, dos sentimentos, da guerra, e que mudou completamente a literatura portuguesa”, lembrou.
Maria da Piedade Ferreira assinalou que foi a partir desse rompimento que outros autores “entraram na linha de escrita dele, portanto, uma mudança muito grande de que ele foi responsável”.
Sobre o seu método de trabalho, a editora recorda que Lobo Antunes não escrevia à máquina, sempre escreveu tudo à mão e que ela era a primeira pessoa a receber e a ler os seus manuscritos, e só então “se começava a fazer a produção do livro”.
Maria da Piedade Ferreira afirmou que tem em sua posse alguns manuscritos de António Lobo Antunes e confessou que ainda não sabe bem o que fazer com eles.
“Não sei se alguma biblioteca gostará de ficar com eles. Eu tenho vários. Tenho manuscritos das crónicas e tenho manuscritos de alguns romances. Tenho, aliás, um que ele me dedicou e que me ofereceu”, revelou, acrescentando que, “como vai haver uma biblioteca António Lobo Antunes, é natural que eles queiram ficar com esses manuscritos”.
A editora referiu que Lobo Antunes já não escrevia livros há três ou quatro anos, mas que deixa “um legado”, que é “uma obra vasta e importante, fundamental para a literatura portuguesa”.
“E mesmo no estrangeiro. Eu já recebi chamadas hoje de Nova Iorque. […] E pedidos de edições continuam a chegar, de traduções. Da Coreia, por exemplo, da Rússia. Ele está a ser publicado na Rússia. Portanto, a obra dele não morreu, está viva, nesse aspeto. Do ponto de vista internacional, continua a haver interesse”, contou.
Maria da Piedade Ferreira apontou ainda aquela que foi uma das amarguras do escritor, não receber o Prémio Nobel da Literatura, considerando que teria sido “merecido”.
“Merecia. Durante uns anos preocupava-se com isso, depois deixou de se preocupar. De certo modo já não lhe interessava, já estava acima disso”.