O campeão que nunca sonhou ser piloto e o engenheiro que sempre quis o Dakar: dois portugueses brilham entre os melhores do mundo
Há momentos em que o silêncio do deserto é interrompido apenas pelo som dos motores. Na Argentina, entre os vales rochosos, as planícies sem fim e as estradas de terra batida que parecem perder-se no horizonte, centenas de pilotos desafiaram, durante vários dias, alguns dos terrenos mais exigentes do mundo. O Desafio Ruta 40 voltou a transformar as paisagens andinas num palco de resistência, velocidade e navegação, numa prova onde um erro de poucos metros pode significar horas perdidas e onde a capacidade de decisão é tão determinante como a rapidez.
Foi nesse cenário que dois portugueses voltaram a destacar-se entre a elite do Rally Raid mundial. Martim Ventura, aos comandos de uma Honda oficial, venceu entre as motas da categoria Rally 2 e assumiu a liderança da Taça do Mundo. Já Alexandre Pinto, ao volante de um Challenger, venceu entre os protótipos de quatro rodas e ascendeu ao segundo lugar do Campeonato do Mundo, com o sonho de conquistar um segundo título mundial consecutivo.
São dois percursos distintos, duas formas diferentes de percorrer o deserto, mas que acabam por convergir no mesmo patamar competitivo: o topo do Rally Raid mundial. Martim compete sozinho, numa perspetiva de autonomia total. Sobre duas rodas, é ele que navega com o roadbook instalado na mota, sem navegador e sem margem para distrações. Aquele momento depende exclusivamente da capacidade de leitura do terreno, da resistência física e da rapidez de decisão.
Alexandre, pelo contrário, segue ao volante de um buggy Challenger, um protótipo desenvolvido especificamente para competição e ao seu lado segue Bernardo Oliveira, o navegador responsável por interpretar o percurso e orientar cada quilómetro da corrida. Aqui, a sintonia entre os dois é decisiva, muitas vezes tão importante como a velocidade do veículo. São duas formas de competição no deserto, mas ambas exigem uma capacidade de adaptação e de resolução de problemas em tempo real.
O Desafio Ruta 40 foi a terceira etapa do World Rally-Raid Championship (W2RC), o Campeonato do Mundo de Todo-o-Terreno. Ao contrário de modalidades como a Fórmula 1 ou o MotoGP, com calendários compostos por dezenas de corridas ao longo da época, o W2RC tem num número mais reduzido de provas de longa duração. O campeonato passa por Portugal, Argentina, Marrocos e Abu Dhabi, além do Dakar, a prova mais emblemática, que se estende por duas semanas e acaba por marcar decisivamente a luta pelos títulos. O Dakar é, precisamente, a corrida que abre o calendário, em janeiro, e que ainda hoje carrega um peso que nenhuma outra prova motorizada consegue igualar.
Alexandre Pinto: o campeão que nunca planeou ser piloto
A história de Alexandre Pinto começa longe dos grandes palcos. Natural de Pegões, nunca sonhou ser piloto profissional. Na infância, bastava-lhe poder conduzir um jipe, um trator ou qualquer máquina agrícola. “Eu gostava era dos motores, não das corridas”, recorda. Durante anos, nunca soube quem ganhou o Dakar, nem nunca acompanhou os resultados dos campeonatos. Tudo mudou quando experimentou uma prova do Campeonato Nacional. Cinco anos depois, tornou-se o primeiro português campeão do mundo FIA de Rally Raid e continua a escrever uma das carreiras mais surpreendentes do automobilismo nacional.
Este ano mudou de categoria. Depois de conquistar o título em SSV, ou melhor dizendo, em veículos derivados de modelos de série, adaptados para competição, com componentes partilhadas com as versões de estrada, passou para a Challenger, ou seja, para protótipos desenvolvidos exclusivamente para correr no deserto, mais rápidos, mais potentes e tecnicamente mais exigentes. "O maior desafio foi habituar-me à caixa de velocidades. Nos SSV eram carros semiautomáticos, só de acelerar e travar”, recorda. A adaptação aconteceu em semanas quando testou o carro dois dias antes do Rally Raid Portugal. Na Argentina, já não havia dúvidas.
A vitória no Desafio Ruta 40 esconde, porém, uma história pouco conhecida. Alexandre e Bernardo adoeceram durante a prova. Nas últimas etapas correram com febre, dores no corpo e um desgaste extremo. “Tivemos uma gripe daquelas que normalmente nos mete na cama. Foram muitas horas a conduzir naquele estado”, afirma. Ainda assim, completaram os mais de 300 quilómetros da derradeira especial e garantiram a vitória. “No final respirámos de alívio. Foi uma corrida onde fomos contra tudo e contra todos”, afirma. O resultado valeu a passagem do sétimo para o segundo lugar no campeonato, a apenas nove pontos da liderança.
No entanto, o Dakar 2026, que abre o W2RC, não correu como esperado. Alexandre não terminou a corrida, o que o deixou sem pontos na ronda que mais pontua e o regresso foi feito a pulso. Em Portugal, pontuou o máximo, na Argentina, venceu: “foi um banho de luz, de esperança para o resto do campeonato”, afirma.
A preparação que sustenta a performance tem de ser minuciosa e em conjunto. Envolve o treino físico geral, isto é, trabalho específico para a cervical, a lombar e os glúteos, assim como, treino de concentração e acompanhamento psicológico semanal para manter o foco e gerir as fases de menor motivação. O navegador, Bernardo Oliveira, de apenas 20 anos, é uma parte central deste processo. “Em 2024 fizemos 15 corridas. Foi um ano muito intenso, onde crescemos muito os dois, com a mecânica, com o carro, tudo”, refere ao acrescentar que a confiança que construíram dentro do carro não se improvisa.
Se conquistar um segundo título mundial, Alexandre sabe o que esse momento vai representar. “Vai ser uma afirmação. Vai mostrar-me que o primeiro não foi um acaso, que foi fruto do meu trabalho”, afirma. E ainda acrescenta algo que diz muito sobre o que custa chegar lá: “aquilo parece muito bonito na televisão, mas não é bem assim. Durante as etapas há momentos onde os problemas aparecem e os pilotos pensam porque é que estão ali a sofrer tanto. Estes títulos puxam-nos para a frente”. reitera.
Martim Ventura: o engenheiro que queria o Dakar desde sempre
Na sua estreia em solo argentino, Martim Ventura encontrou um cenário que não era nenhum dos que já conhecia. “Era uma mistura do Dakar com Portugal”, explica. “Um deserto aberto, mas com muita vegetação, onde tínhamos sempre de seguir a pista”, explica. A isso juntava-se a altitude, com várias especiais onde os pilotos aproximaram-se dos quatro mil metros junto à cordilheira dos Andes. “Qualquer erro podia ser pago de uma forma muito cara. Se fosse preciso voltar atrás ou levantar a mota depois de um engano, o esforço era enorme”, confessa.
A vitória representou muito mais do que um triunfo numa corrida. Depois de alguns contratempos nas provas anteriores, foi a primeira vez que conseguiu mostrar todo o seu potencial como piloto oficial da Honda. “Finalmente consegui ganhar e passar para a liderança do campeonato de Rally 2”, afirma. Mas, Martim Ventura, faz questão de lembrar que o maior objetivo continua bem definido: “o meu sonho é ganhar o Dakar”. A categoria onde compete é vista como o patamar de afirmação para quem ambiciona chegar à RallyGP, onde estão os principais nomes do Rally Raid mundial, e aos 25 anos, o piloto português acredita estar no caminho certo para dar esse salto.
Este é o seu primeiro ano como piloto oficial da Honda, uma mudança que alterou profundamente a sua vida. “Para chegarmos ao campeonato do mundo temos que pegar no nosso dinheiro, arranjar os nossos patrocínios pessoais, fazer um trabalho enorme sozinhos. Com a Honda, as coisas simplificam-se muito mais, não tenho que arranjar patrocínio, não tenho que arranjar dinheiro, ainda sou pago para fazer o que gosto, não tenho que me preocupar com a mota. O meu dia a dia passa a ser focado na minha performance”, afirma.
A estabilidade permitiu-lhe crescer em resultados, mas o caminho até aqui foi exigente. Licenciado em Engenharia Eletrónica pelo Instituto Superior Técnico, Martim nunca escondeu que acreditava ser possível chegar ao topo, mas o seu percurso fez com que tomasse algumas decisões. Há quatro anos perdeu o pai, precisamente numa altura em que terminava o curso superior e, em simultâneo, assumia as responsabilidades na empresa da família. Entre a estabilidade de um negócio familiar e o sonho de competir ao mais alto nível, acabou por escolher o desporto motorizado, dedicando-se por inteiro às motos e à construção de uma carreira internacional. “Durante anos ouvi muitas vezes quando é que arranjava um trabalho a sério”, lembra. Hoje sorri perante essas recordações, mas não esquece o que lhe custaram.
Quem o ouve falar das corridas percebe rapidamente que existe uma paixão pelos espaços abertos que vai muito além de qualquer competição. Um dos seus sonhos passa por trocar o ritmo da cidade de Cascais pelo silêncio das ruas alentejanas. “Na cidade há trânsito para tudo. O campo é a paz. Quero sair de casa e poder andar de mota à vontade e sem qualquer problema”. É uma pessoa que vive a 160 quilómetros por hora nas especiais, mas que sonha com o silêncio quando a prova acaba. Quando lhe perguntam o que diria ao jovem de 16 anos que começou no todo-o-terreno, a resposta chega sem hesitação: “continua, porque muitas pessoas tinham talento suficiente para chegar longe, mas desistiram demasiado cedo”, reitera.
São estas duas histórias que acabam por se cruzar no mesmo ponto. Martim Ventura sonha um dia em vencer o Dakar, enquanto Alexandre Pinto quer provar que consegue repetir o título mundial numa categoria diferente. Um segue sozinho sobre duas rodas, o outro divide o habitáculo com o navegador. Mas ambos partilham a mesma convicção de que os limites existem apenas até ao momento em que alguém decide atravessá-los. E foi isso que voltaram a fazer na Argentina, onde, entre a poeira, a altitude e os quilómetros sem fim, deixaram novamente a bandeira portuguesa entre os melhores do mundo.