Obra "Portuguesas em Missões de Paz" dá voz e visibilidade a mulheres nas forças armadas
O testemunho das experiências pessoais de 20 mulheres faz o livro "Portuguesas em Missões de Paz", apresentado na próxima terça-feira, em Lisboa, para dar visibilidade ao papel das mulheres nas Forças Armadas e nas forças de segurança.
O livro reúne o testemunho de mulheres que estiveram ou estão envolvidas em missões internacionais de paz, que relatam as suas experiências num contexto dominado ainda pela presença masculina, como disseram as autoras à agência Lusa.
A obra reflete assim também o longo e consequente processo de integração de género que ocorreu ao longo dos últimos 30 anos.
Maria Margarida Pereira-Müller e Cidália Vargas Pecegueiro, quiseram dar voz às mulheres que abraçam a carreira militar ou integram as forças de segurança e perceber de que forma a presença feminina pode fazer a diferença.
"A História em geral, não só a história da guerra, é sempre contada numa perspetiva masculina. O foco está nos soldados, nos homens, nos líderes militares e as mulheres ficam sempre, postas de parte", observa Margarida Müller, também ela filha de um militar que cumpriu serviço na guerra colonial.
Cidália Pecegueiro lembra que a vontade de escrever sobre as mulheres não surge do nada e este é mais um exemplo depois de, em 2023, terem publicado o livro "As Mulheres do meu País - Século XXI", inspirado na obra original de Maria Lamas.
"Não somos novatas nisto de dar visibilidade às mulheres, é quase como se nós tivéssemos uma missão que é dar exemplo de mulheres que são empreendedoras, mulheres que têm de alguma forma trabalhos que antigamente eram reservados aos homens, mulheres cujas trajetórias são interessantes, e que sirvam de exemplo para as jovens", referiu.
Tudo o que fica na invisibilidade é mais difícil de alcançar, consideram as autoras e esse foi o mote para o livro que dizem ser uma homenagem a todas as mulheres que vestem a farda para defender a paz, à sua coragem e sacrifício.
O que mais as surpreendeu “foi o número tão diminuto de mulheres nas missões” e não apenas de mulheres portuguesas.
“No Afeganistão, em que elas eram as únicas, ou na República Central Africana, em vários sítios, acho que não houve nenhuma que dissesse que havia paridade ou perto disso. Num grupo de 30, eram duas mulheres ou uma mulher", confessou a autora.
Apesar desta realidade, as autoras revelam que as mulheres mais velhas reconhecem e sublinham uma evolução.
Estas vincaram muito que notaram uma evolução desde que entraram até agora, no tratamento e também no número de mulheres a voluntariar-se e a entrar neste tipo de missões, e entre colegas também já se veem como iguais, contam.
Em termos da participação de mulheres militares em missões militares internacionais (Missões Militares da ONU; Missões Internacionais ao serviço da NATO e da União Europeia), em 2023, segundo dados do Ministério da Defesa Nacional, esta situava-se abaixo dos 10%, sendo a Marinha o ramo que empenhava mais mulheres nas missões externas, seguindo-se a Força Aérea e em último lugar, o Exército.
Para além desta questão, as duas autoras quiseram alcançar também a importância e o contributo do papel da mulher em países onde as assimetrias de género ganham proporções mais visíveis.
"A sociedade e a cultura impedem que falem com os soldados, não só para pedir ajuda, para receber ajuda. As mulheres militares e das forças de segurança que estão nessas missões têm esse papel muito importante de conseguirem chegar a uma parte da sociedade onde os homens não conseguem chegar e onde há vítimas que são duplamente vítimas (...) porque a violação também é uma ferramenta da guerra", relataram.
Por último, as autoras sublinham o poder do exemplo e esperam que este livro chegue às escolas e às bibliotecas escolares para mostrar que há várias carreiras ou várias vidas que as meninas, podem ter.
Se assim for, consideram que esta é uma missão cumprida.
O livro "Portuguesas em missões de paz", é apresentado no dia 10 de março, às 18h00 no Auditório da Associação Mutualista, em Lisboa.