Patrícia Reis assina "A Última Lição de Álvaro Siza Vieira" sobre o arquiteto com alma de poeta

A jornalista e escritora Patrícia Reis não hesita em afirmar que a dimensão da palavra no percurso do arquiteto, prémio Pritzker em 1992, foi o que a mais "a fascinou" ao longo das tardes de sábado em que viajou até ao Porto para a série "de conversas lentas" que sustentam este quarto volume da coleção " A Última Lição", com a chancela da Contraponto.
Agência Lusa
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19 abr. 2026, 08:52

O livro "A Última Lição de Álvaro Siza Vieira", de Patrícia Reis, dá voz ao homem que, aos 92 anos, se diz " um tipo profundamente inculto” e que se revela como "um arquiteto com alma de poeta".

Em entrevista à Lusa, a jornalista e escritora Patrícia Reis não hesita em afirmar que a dimensão da palavra no percurso do arquiteto, prémio Pritzker em 1992, foi o que a mais "a fascinou" ao longo das tardes de sábado em que viajou até ao Porto para a série "de conversas lentas" que sustentam este quarto volume da coleção " A Última Lição", com a chancela da Contraponto.

"Aquilo que mais me fascinou foram os textos escritos por ele, a sua dimensão poética , a sua imensa cultura, apesar de ele se considerar um homem inculto, a verdade é que tem uma cultura extraordinária, e ele é um poeta. É um arquiteto com alma de poeta, é isso mesmo", enfatiza.

Em jeito de prefácio, a autora começa por escrever que lhe "é fácil conversar com arquitetos", convidando o leitor para uma dança entre a caneta e o papel, traço que distingue Álvaro Siza Vieira, a quem se refere como "o homem que desenha enquanto fala".

O ritual do arquiteto que queria ser escultor, e que vai procurando as palavras enquanto desenha sobre maços de tabaco cobertos a papel branco cumpriu-se também desta vez, numa coreografia de memórias, pensamentos, revelações, projetos e a inesgotável vontade de criar.

"Esta imagem que eu usei logo no início, do homem que desenha enquanto fala, é porque isso é a cabeça dele, a tal capacidade de sonhar projetos enquanto está a dormir. Amanhã, se o Álvaro Siza Vieira deixar de trabalhar, vai no instante, porque o que o alimenta são estas solicitações do mundo e esta forma profundamente curiosa através da qual ele encara aquilo que está à volta dele. É uma curiosidade quase de menino", constata a autora que ousa atrever-se na ideia de que "compreender a infância de um entrevistado" é um caminho para "compreender o resto da sua vida".

"Fiz questão de começar pela infância e tivemos dois sábados longos sobre a infância, as memórias mais antigas, a ideia da guerra, porque ele lembra-se da Segunda Guerra [Mundial], ele lembra-se de ir colar papelinhos nas janelas por causa dos bombardeamentos, ele lembra-se dos submarinos alemães, ele lembra-se daquilo que se falava dos espiões, ele lembra-se da exposição do Mundo Português, em 1942, e tenta reproduzir com fósforos e papel e cartolina", recorda.

Humor, gentileza, diálogo, compreensão do mundo, o prazer da escrita, são apenas alguns dos atributos que Patrícia Reis vai desvendando sobre o arquiteto de Matosinhos, ora abordando a dimensão do estudante, do professor, da família, ora conversando sobre o enredo dos projetos que assina.

Sejam na China ou na Coreia, onde atualmente o seu trabalho é acolhido com "mais entusiasmo", seja a nova Biblioteca da Universidade de Coimbra (com construção com início previsto para 2026), ou a Avenida da Ponte, no Porto "uma obsessão", e o bairro da Malagueira, em Évora, o Pavilhão de Portugal na Expo 98, o Chiado ou a Igreja de Santa Maria em Marco de Canavezes.

É longo o percurso de Álvaro Siza, que " não desiste com facilidade", mesmo se desaconselha o ofício "porque o arquiteto deixou de ser importante" e se os prémios, "que fazem bem ao ego", também lhe "provocam mais problemas do que outra coisa".

Há também o homem que acredita em extraterrestres, o que se descobre feminista, o que se debate com a morte - "coisa chata de se pensar" - e o que já não viaja, por conta das maleitas físicas, mas continua a voar, observando o mundo "ao lado e ao longe" com uma lucidez que desafia os 92 anos.

E o que escreve como quem desenha, amante das palavras e da poesia, como os haikus.

"Importa ver para melhor inventar", diz a páginas tantas o arquiteto que "se constrói e vai construindo".

"Imaginar para inventar, é um dos modos de funcionamento daquela cabeça. Essa capacidade de querer continuar a ver. E também quer continuar a surpreender-se, isso é que é o melhor de tudo, não é?", deixa no ar Patrícia Reis, como quem suspeita que esta talvez não seja afinal, a última lição de Álvaro Siza Vieira.

Álvaro Siza Vieira, nascido em Matosinhos há 92 anos, é o arquiteto português mais reconhecido internacionalmente e recebeu dezenas de prémios em todo o mundo ao longo da sua carreira, incluindo o Pritzker, em 1992.