Portugal falha descolagem em Houston na estreia no Mundial

No jogo que marcou a estreia de Portugal no Mundial de 2026, a equipa das quinas não foi além de um empate a um golo frente à República Democrática do Congo, numa partida que deixou a nu dificuldades coletivas e individuais que deixam dúvidas para os próximos jogos.
Tiago Oliveira Jornalista
17 jun. 2026, 20:20

Do Estádio NGR em Houston ao Estádio MetLife são pouco mais 2600 km de distância e é aí que cabem todos os sonhos que separam Portugal da ansiada presença na final do Mundial 2026, marcada para 19 de julho. Mas o caminho não se faz assim, com uma exibição frouxa e sem intensidade, que impediu Portugal de descolar de forma ideal rumo ao título na cidade da NASA, e a não ir além do empate a um golo na estreia com a República Democrática do Congo.

68 677 espectadores para o arranque no recinto norte-americano e muitas expectativas, com Portugal a querer fazer vingar o seu favoritismo e a aproveitar o apoio entusiástico visível e audível que a comunidade emigrante nos EUA não tem parado de dar ao longo destes dias. E começar com uma vitória no jogo inaugural contra uma equipa africana (nesse caso, o Gana), tinha sido o cenário em 2022, pelo que a expectativa era repetir o início positivo.

O onze inicial reservou, poucas surpresas, com talvez as únicas que se podem qualificar como tal a serem a inclusão de Tomás Araújo ao invés de Gonçalo Inácio e a titularidade de Pedro Neto em detrimento de João Félix. De resto, tudo como esperado, com Cristiano Ronaldo a partir com a motivação extra, no seu sexto mundial, de responder à performance do seu rival de sempre, Lionel Messi, que fez um hat-trick na estreia da Argentina contra a Argélia.

E assim começou o jogo para a seleção nacional no seu habitual 4-3-3, mas com Bernardo Silva a tentar (ênfase aqui) funcionar como uma espécie de 4º médio e a oferecer algumas nuances ao jogo coletivo da equipa, contra os cinco defesas e uma postura mais expectante da Republica Democrática do Congo. 

Pouco perigo

Portugal começou pressionante, com posse de bola, e foi duma insistência que começou a jogada que deu o golo inaugural a João Neves e a Portugal, aos 6 minutos. Com conta, peso e medida, Pedro Neto cruzou para o salto em antecipação na grande área do médio do PSG a desafiar a sua pequena estatura e assinar de cabeça o 1-0 madrugador para a equipa das quinas.

Melhor começo era complicado para a turma das quinas, com a equipa congolesa a procurar reagir ao golo português, com duas aproximações perigosas aos 12 e 14 minutos a terminarem em remates perigosos de Wissa e Bakambu, respetivamente.

Já a resposta de Portugal ao golo madrugador foi tentar controlar o jogo sem muita rutura e a priviligiar uma posse sem grande intensidade ou consequência. Mas ainda houve espaço para um ou outro esticão no jogo, como aos 18 minutos, em que uma bola longa para a desmarcação de Nuno Mendes obrigou a uma intervenção difícil do guarda-redes congolês, com Bruno Fernandes a não conseguir definir entre o remate e o cruzamento no seguimento da jogada.

A primeira parte seguiu lenta e a superioridade na posse de Portugal, estéril, com a diferença de 275 para 55 no número de passes feitos por cada equipa, pouco antes da meia-hora, a dar uma impressão de domínio da equipa lusa que não se refletia em ocasiões flagrantes ou situações de perigo.

E foi como que a castigar o adormecimento coletivo, com que Portugal aparentemente queria que o jogo chegasse ao fim da primeira parte, que a República Democrática do Congo chegou ao empate. Cuzamento da direita de Masuaku, Portugal perdido nas marcações, Diogo Costa hesitou, e Wissa aproveitou para cabecear sem oposição para fazer o 1-1 com que o jogo chegou ao descanso.

Apagão coletivo

Bernardo Silva foi o sacrificado pelo apagão coletivo na primeira parte, com o "espalha brasas" Francisco Conceição, como foi apelidado por Roberto Martinez, a ser lançado ao intervalo para tentar agitar as hostes, mas sem impacto imediato. Esse só com mudanças profundas na mecânica da equipa, o que não ocorreu nem nos primeiros 15 minutos do reatar, com Portugal a não conseguir testar o guarda-redes contrário. E a tendência não se desvaneceu.

Coube aos africanos, que entraram com confiança renovada na segunda parte, o melhor deste período, com jogadas mais incisivas a colocarem em sentido a defensiva portuguesa. Aliás, aos 50 minutos, uma combinação perigosa só foi travada por fora de jogo, como sinal das dificuldades de Portugal perante as transições rápidas adversárias.

Portugal até equilibrou a balança do perigo em fora de jogo com um golo anulado aos 55 min por posição irregular de João Cancelo, após peitada com nota artística de de João Neves, dos poucos a conseguir destacar-se perante as dificuldades coletivas. Tal como Pedro Neto, o único capaz de esticar o jogo.

Pouco Vitinha e Bruno Fernandes, vítimas da organização coletiva ou desinspiração, fica a questão, e poderá já ter reparado que desde o início ainda não se voltou a falar de Cristiano Ronaldo. Com escassas solicitações, sempre algo desfasado da equipa, mal se via em campo. Até que apareceu aos 68 minutos para finalizar em esforço e desenquadrado da baliza um raro cruzamento perigoso de Francisco Conceição.

À entrada das pausas para hidratação, que já se tornaram uma marca deste Mundial, o cenário era difícil e viu-se Roberto Martinez a pedir de forma insistente à equipa ter mais intensidade e variar mais o flanco de jogo.

Dúvidas

Logo de seguida vieram as entradas de Rafael Leão e Nelson Semedo, com a equipa técnica a tentar inserir alguma urgência no jogo de Portugal e tentar desfazer o 1-1 que teimosamente se mantia no marcador. O que não aconteceu aos 74 minutos, porque num lance tirado quase a papel químico do anterior, Cristiano Ronaldo voltou a não conseguir responder da melhor forma a nova solicitação de Francisco Conceição.

Portugal parecia começar a conseguir impôr-se de forma mais assertiva, com mais jogadas de envolvimento, mas foi sol de pouco dura. A seleção também se expôs, com Tomás Araújo a impedir males maiores com um grande corte aos 75 minutos e Bakambu a não ser capaz de finalizar um bom contra-ataque aos 77 minutos. 

A entrada de Rafael Leão revelou-se, no mínimo, inconsequente, com o extremo a ser incapaz de ganhar uma única vez no 1 contra 1 e não conseguir fazer vincar o seu forte, a velocidade, ao passo que Gonçalo Ramos nem se viu e Portugal a não conseguir dar uma resposta final pressionante e perigosa. À parte de um remate de longe de Bruno Fernandes, perto dos 90 minutos, a pressão nunca esteve próxima de ser asfixiante e a República Democrática do Congo foi sendo capaz, com maior ou menor dificuldade, de aguentar as investidadas portuguesas, sempre com um olho no contra-ataque.

No final, a incapacidade criativa de Portugal e a falta de arrojo e velocidade com a bola não permitiu mais. Mais de 600 passes, quase sempre pouco progressivos, lentos, e o jogo chegou mesmo ao fim com o 1-1 e muitos pontos de interrogação sobre a capacidade da equipa das quinas em fazer todos os quilómetros que ainda faltam para o tão ambicionado objetivo da vitória.