Produção atual não garante aguardente suficiente para vinho do Porto, alerta IVDP

O Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto alertou que a obrigatoriedade de usar apenas aguardente regional na produção de vinho do Porto pode não ser viável. Um estudo técnico conclui que a região não tem produção suficiente para garantir essa medida.
Agência Lusa
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06 mai. 2026, 15:17

O presidente do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP) disse esta quarta-feira que a discussão do uso exclusivo de aguardente regional do Douro “importa muito à região” e lembrou o estudo que conclui pela inviabilidade da medida.

O presidente do IVDP, Gilberto Igrejas, foi esta quarta-feira ouvido na Assembleia da República, no âmbito da audição de entidades sobre o uso exclusivo de aguardente vínica com origem e produção na Região Demarcada do Douro (RDD) na beneficiação do vinho do Porto e moscatel, na sequência da aprovação, em janeiro, de um diploma do partido Juntos pelo Povo (JPP).

O responsável realçou que a discussão do uso exclusivo de aguardente regional “importa muito à região” e lembrou que o IVDP analisou a viabilidade da integração de aguardente vínica regional no mosto para a produção de vinho Porto, cujas conclusões foram conhecidas em janeiro.

“Em síntese, o que esse trabalho de natureza técnica diz é que a quantidade que nós produzimos de uvas na RDD não é suficiente para a produção integral de [vinho do] Porto nos quantitativos que vínhamos a produzir ao longo dos anos”, referiu Gilberto Igrejas.

O projeto-lei do deputado único do JPP, que teve votos contra do PSD, CDS-PP e IL e favoráveis das restantes bancadas e deputados, quer consagrar o uso exclusivo de aguardente vínica produzida na RDD para a produção de vinho do Porto e do moscatel do Douro.

O estudo divulgado em janeiro, pedido pelo ministro da Agricultura em 2024, concluiu que o uso exclusivo de aguardente do Douro na produção de vinho do Porto é “tecnicamente inviável, economicamente insustentável e estrategicamente arriscado”.

O uso exclusivo da aguardente regional é uma questão polémica, com uns a defender esta como uma solução para a crise no Douro, com quebras nas vendas e nos rendimentos dos viticultores, e outros a alertar para riscos nesta imposição.

“O paradigma que aqui estamos a discutir terá proporções na região que serão de modo irreversível para a viticultura duriense”, frisou o presidente do IVDP.

Gilberto Igrejas apontou para as quebras nas vendas de vinho do Porto, enquanto os vinhos Denominação de Origem Protegida (DOP) Douro fizeram “precisamente um caminho inverso”.

“O que está aqui em causa analisar ao dia de hoje e aos valores atuais do dia de hoje é saber se a quantidade de matéria-prima que a RDD tem é suficiente para produzir Porto ou para, diminuindo a quantidade de Porto, ainda assim ser possível produzir com a integridade da matéria-prima proveniente do Douro, Duriense, e de todas as denominações que sobram a par do vinho licoroso”, referiu.

Recorrendo a gráficos sobre a produção de vinhos na RDD, Gilberto Igrejas referiu que, desde 2008, contabilizaram-se “quatro anos em que a totalidade de Douro e Porto, das duas DOP, não eram suficientes para gerar a aguardente que era necessária”.

Também ouvido hoje na Comissão de Agricultura e Mar, o presidente do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), Francisco Toscano Rico, considerou que a medida dificilmente cumprirá o objetivo da valorização da uva, que provavelmente não é a melhor das opções e que impõe um ónus à região desproporcionado.

Garantiu ainda que o IVV está “obviamente disponível para trabalhar com todos, para procurar as melhores soluções” e lembrou que este instituto integra o grupo de trabalho, criado pela resolução do Conselho de Ministros, para formular um plano de ação e materializar ações concretas para a RDD e medidas que vão desde a vinha até ao mercado.