Programa educativo da Anozero em Coimbra usa o barro para desafiar emoções de alunos
O programa educativo da Anozero’ 26 – Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra propõe a utilização do barro para desafiar as emoções de centenas de estudantes de três escolas secundárias da cidade, levando-os a refletir sobre os tempos atuais.
Uma das iniciativas hoje divulgada intitula-se “Anozero Vai às Escolas” e parte de uma instalação do artista visual e educador Pedro França, desenvolvido em colaboração com 24 alunos da escola secundária José Falcão.
A instalação, segundo contou à Lusa o coordenador do programa educativo, José Cabrera, “reflete sobre as noções de migração e deslocamento na contemporaneidade”, através de ações “que traduzem emoções e experiências associadas à mobilidade humana e à deslocação”.
Juntos, o artista plástico e os estudantes, criaram uma instalação, tendo por base a argila, “como um material que permitiu receber expressões performativas [por poder ser amassada, pisada, esticada ou modelada], ligadas ao tema da migração, que nela ficaram gravadas”, explicou Jorge Cabrera.
Deste modo, os jovens artistas – quer uns com familiares a residir fora de Portugal e outros que chegaram ao nosso país, vindos de diferentes países (como o Brasil, Angola ou Ucrânia, entre outros) - utilizaram a superfície da argila crua para expressarem as suas emoções, manipulando o barro para mostrarem experiências e vivências próprias ou alheias.
Por outro lado, uma das preocupações do também coordenador do programa educativo do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, um dos promotores da Anozero’26 – evento que decorre entre 11 de abril e 05 de julho, sob o tema “segurar, dar, receber” – foi a de “aproveitar ao máximo” a deslocação à bienal de artistas ‘estranhos’ à cidade (Pedro França, por exemplo, é brasileiro e nasceu no Rio de Janeiro) para “criar um diálogo de aproximação com a comunidade” local.
Adjacente à instalação que já esteve na secundária D. Duarte - onde envolveu 305 estudantes entre os 14 e os 18 anos -, está atualmente na José Falcão e chegará à escola Avelar Brotero a 14 de abril, são promovidos dois laboratórios de criação, um também relacionado com a argila, embora com finalidade diferente da instalação artística.
“O laboratório convida outros estudantes a terem a mesma experiência dos [originais] 24 alunos. Só que, neste caso, trabalhamos mais a questão do desapego, no sentido em que o resultado já não vai ao forno [instrumento onde são finalizadas as peças cerâmicas da exposição itinerante] mas antes para um espaço exterior à escola, onde a chuva, o vento e o tempo vai desintegrando as peças”, observou Jorge Cabrera.
“O barro é destruído e passa à terra, há também essa experiência de transformação”, adiantou, aludindo a um corpo que se vai impregnando de vivências e emoções, resultando numa metáfora da vida.
“É importante que estes jovens percebam que nós somos seres em transformação, e esta é uma experiência de arte e vida”, vincou o coordenador educativo.
O programa educativo da bienal Anozero’26 – centrado no tema Ancestralidades, Migrações e Deslocamentos - inclui ainda, para além de outras iniciativas, um ciclo de workshops e outro de documentários (promovido em colaboração com o Doc.Coimbra) com filmes de sete países.