Projeto 'HerStory, Our Future' leva jovens a criar mini-documentários sobre igualdade de género em Faro

O projeto europeu ‘HerStory, Our Future’ foi lançado em Faro para envolver jovens na promoção da igualdade de género, através da criação de mini-documentários e campanhas digitais. A iniciativa aposta no storytelling e no ativismo como ferramentas de participação cívica e intervenção social.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
07 abr. 2026, 07:00

Jovens criam mini-documentários e campanhas digitais para dar visibilidade a histórias de mulheres muitas vezes esquecidas. É este o ponto de partida do projeto europeu ‘HerStory, Our Future’, lançado em Faro, que aposta no storytelling e no ativismo como ferramentas de intervenção social.

“Trata-se de um projeto de cooperação internacional que tem como principal objetivo capacitar jovens para se tornarem agentes ativos na promoção da igualdade de género, através de ferramentas como o storytelling digital, o ativismo e iniciativas comunitárias”, afirmou Salomé Marques, gestora do projeto, em entrevista ao Conta Lá.

Coordenada pela Universidad de Extremadura, em Espanha, e desenvolvida em parceria com organizações de vários países europeus, incluindo Portugal, Itália e Sérvia, a iniciativa resulta de uma proposta da Contextos – Cooperativa para o Desenvolvimento e Coesão Social. O foco está na criação de narrativas mais inclusivas, capazes de contrariar a invisibilidade de muitas histórias e experiências femininas.

Entre a vontade de participar e a falta de ferramentas

O projeto nasce de um paradoxo identificado junto dos jovens: há interesse e consciência sobre temas sociais, mas nem sempre existem meios para transformar essa vontade em ação.

“Identificámos a falta de ferramentas práticas para transformar essa vontade em ação concreta, bem como a necessidade de maior literacia crítica sobre desigualdades estruturais e interseccionais”, apontou Salomé Marques, sublinhando também as dificuldades no acesso a espaços de participação e no desenvolvimento de competências ligadas à comunicação e ao ativismo.

Para responder a estas lacunas, a iniciativa aposta numa abordagem prática e participativa. Ao longo de dois anos, dezenas de jovens de vários países europeus vão passar por formações, momentos de aprendizagem internacional e experiências de intervenção nas suas comunidades.

Mais do que participantes, os jovens assumem um papel ativo na criação de conteúdos. Desde a escolha dos temas até à produção audiovisual e à divulgação, são envolvidos em todas as fases do processo. A par disso, estão previstas campanhas locais e ações de sensibilização que procuram levar o debate sobre igualdade de género para fora dos espaços formais.

Um projeto europeu com impacto local

A dimensão internacional é central, mas o impacto pretende ser sentido à escala local. A cooperação entre parceiros de diferentes países será feita através de formações conjuntas, reuniões de coordenação e desenvolvimento partilhado de metodologias.

“O projeto assenta numa forte cooperação internacional, com trabalho conjunto entre parceiros de vários países, incluindo reuniões de coordenação, momentos de formação e desenvolvimento colaborativo de ferramentas e metodologias”, referiu a responsável.

Para o presidente da Câmara Municipal de Faro, António Miguel Pina, o valor da iniciativa está precisamente na forma como mobiliza os jovens. “Quando os jovens deixam de estar apenas a assistir e passam a querer participar, a questionar e a construir, significa que estamos no caminho certo”, sustentou em conversa com o Conta Lá.

Igualdade de género: um avanço que não está garantido

Apesar dos progressos, a igualdade de género continua longe de ser um dado adquirido. O autarca alerta para sinais de retrocesso que tornam o tema ainda mais relevante.

“Há momentos em que percebemos que aquilo que julgávamos conquistado afinal não está garantido. A igualdade de género é um desses lugares frágeis”, afirmou, defendendo que a valorização das mulheres deve ser encarada como uma questão estrutural. “Valorizar as mulheres não pode ser uma tendência, uma modinha conveniente. É uma questão de justiça, de equilíbrio e de inteligência coletiva”, acrescentou.

Ao mesmo tempo, reconhece que a participação jovem ainda enfrenta obstáculos. “Os jovens têm consciência, têm opinião, mas nem sempre encontram espaços onde sintam que são ouvidos de verdade”, observou ainda. Projetos como o ‘HerStory, Our Future’ surgem, assim, como uma resposta a essa ausência de espaços, ao criar oportunidades concretas de envolvimento, expressão e intervenção.

Mais do que resultados imediatos, uma mudança de perspetiva

Entre os resultados esperados estão o desenvolvimento de competências em áreas como liderança e comunicação, a criação de conteúdos e campanhas e o reforço da visibilidade das histórias de mulheres. A avaliação do impacto será feita através do acompanhamento dos participantes e da análise do alcance das iniciativas.

Ainda assim, o efeito mais relevante pode não ser imediato nem facilmente mensurável. “Espero que deixe marca nas pessoas que participam, não de forma imediata ou visível, mas na forma como passam a olhar para o mundo e para o seu papel nele”, concluiu António Miguel Pina.

Num momento em que a igualdade de género volta a ser questionada e a participação jovem nem sempre encontra espaço, o projeto aposta numa ideia simples, mas exigente: não basta querer intervir — é preciso saber como fazê-lo.