Universidades periféricas: o futuro constrói-se com inclusão, visão e sustentabilidade

Alexandra Teodósio, Reitora da Universidade do Algarve, é a autora deste artigo de opinião para o Conta Lá. 
Alexandra Teodósio
Alexandra Teodósio Reitora da Universidade do Algarve
20 fev. 2026, 12:56

O debate sobre o futuro do ensino superior em Portugal não pode continuar centrado apenas nas grandes áreas metropolitanas. Se quisermos um País mais coeso, mais inovador e mais justo, temos de olhar para as universidades periféricas não como problema, mas como parte essencial da solução. 

A Universidade do Algarve (UAlg) é um exemplo claro desse desafio. Inserida numa região com enorme potencial económico, ambiental e cultural, enfrenta, simultaneamente, constrangimentos estruturais que se cruzam com transformações profundas da sociedade: a redução demográfica, a pressão sobre o financiamento público, as desigualdades no acesso ao ensino superior, a transição energética e adaptação às alterações climáticas e a necessidade de reforçar a ligação entre conhecimento, território e desenvolvimento. 

O primeiro grande desafio é demográfico. Tal como outras instituições europeias, a UAlg enfrenta uma redução da base tradicional de recrutamento de estudantes. Este fenómeno atinge com maior intensidade as regiões periféricas, agravado por políticas nacionais de alargamento de vagas que tendem a favorecer instituições localizadas nos grandes centros urbanos. Perante este cenário, a sustentabilidade das universidades exige uma estratégia clara: diversificar públicos, reforçar a internacionalização, apostar na formação ao longo da vida e criar percursos mais flexíveis e inclusivos. 

Mas o desafio não é apenas quantitativo. É também social. A taxa de abandono no primeiro ano de estudos continua elevada, e a mobilidade internacional dos estudantes permanece reduzida. Estes indicadores revelam que o acesso ao ensino superior não garante, por si só, igualdade de oportunidades. É necessário investir em políticas de apoio, inovação pedagógica e acompanhamento dos estudantes, sobretudo daqueles provenientes de contextos socioeconómicos mais vulneráveis. As universidades têm de ser espaços de excelência académica, mas também de inclusão e justiça social.  

O segundo grande desafio é o financiamento. O Algarve, classificado como região em transição, enfrenta condições de cofinanciamento menos favoráveis do que a maioria das regiões do País, o que limita o desenvolvimento de infraestruturas e projetos estratégicos. Esta situação evidencia a necessidade de uma reforma do modelo de financiamento do ensino superior, que valorize não apenas critérios quantitativos, mas também o impacto regional, a qualidade científica e a contribuição para a coesão territorial.  

O terceiro desafio é o da inovação e da investigação. Apesar dos avanços, o Algarve continua a apresentar níveis reduzidos de investimento em I&D e fraca participação empresarial. Neste contexto, a universidade deve assumir um papel ativo na construção de ecossistemas de inovação, na valorização do conhecimento e na definição de políticas públicas orientadas para o desenvolvimento sustentável. A investigação interdisciplinar, a ligação à economia regional e a colaboração com parceiros internacionais são pilares essenciais dessa estratégia.  

Por fim, há um desafio que atravessa todos os outros: o papel das universidades num mundo em constante transformação e a necessidade da internacionalização. Num contexto marcado por contexto geopolíticos incertos, desigualdades e mudanças tecnológicas profundas, as instituições de ensino superior não podem limitar-se a formar profissionais. Devem formar cidadãos para o mundo, críticos, criativos e responsáveis, capazes de liderar a transição para sociedades mais sustentáveis, inclusivas e democráticas. 

Na Universidade do Algarve, esta visão traduz-se num projeto estratégico que olha para 2030 como horizonte de transformação. Um projeto que aposta num ensino mais inovador e inclusivo, numa investigação com impacto global e numa universidade profundamente ligada ao território e ao mundo. Uma universidade sem muros, aberta à diversidade, à cooperação e à responsabilidade social.  

O futuro do ensino superior português passa, em grande medida, pela capacidade de reconhecer o valor das suas universidades periféricas. Não como instituições secundárias, mas como motores de desenvolvimento, inovação, coesão territorial e de projeção para além das suas periferias, no caso da UAlg e do Algarve, na construção efetiva de pontes de conhecimento com outros continentes. Investir nas universidades periféricas não é um custo, mas sim uma escolha estratégica para o País. 

Se quisermos um Portugal mais equilibrado, mais competitivo e mais sustentável, temos de ter a coragem de repensar políticas, modelos de financiamento e prioridades, e, sobretudo, de confiar nas universidades como espaços de criação de conhecimento, de cidadania e de futuro.