"Temos de olhar para a energia como um componente da atividade económica"
Portugal e Espanha têm um preço da eletricidade muito competitivo em relação aos parceiros da União Europeia. Nos últimos anos, Portugal tem ganhado competitividade por ter apostado na atração de investimentos, em estações de amarração de cabos marinhos, em centros de processamento e armazenamento de dados e em infraestruturas de telecomunicações. "Por todo o país existe hoje uma economia de dados". Quem o diz é Filipe Santos Costa, investigador da Universidade Nova de Lisboa, em entrevista ao Conta Lá, no terceiro dia da Covilhã Innov Summit.
O responsável afirma que hoje, a questão de energia verde é quase inquestionável no que toca ao desenvolvimento de negócios e que a eletricidade de fontes renováveis é mais do que uma excelente área de negócio.
"É como uma necessidade, um imperativo ambiental, como é também uma possibilidade que se abre para a economia, porque temos de olhar para a energia como um componente da atividade económica. Uma das grandes vantagens competitivas que há em Portugal hoje em dia é um fornecimento abundante de eletricidade de fontes renováveis a bom preço sobretudo quando comparado com o resto da Europa."
Questionado sobre a forma como os data centers usam os recursos, nomeadamente o uso excessivo de água, Filipe Santos Costa, explica que estas estruturas quando consomem água é para arrefecimento e que os valores ambientais são sempre difíceis de compatibilizar. "Por um lado, abdicamos das energias fósseis para a produção de eletricidade, por exemplo abdicamos do carvão. Mas temos que o substituir por algo, porque precisamos de eletricidade. Portugal quer atrair a nova indústria pesada, descarbonizada, que resulta das políticas de fomento da União Europeia e também nacionais, queremos atrair esses grandes centros de dados, que também resultam da regulação Europeia e do interesse de empresas gigantes norte-americanas que querem investir na Europa em data centers e claro que queremos atrair essa atividade económica".
Para o investigador, é preciso produzir mais eletricidade verde e introduzir os sistemas de gestão que são necessários, como a gestão digital da energia. "Temos de ter a certeza que o excesso de energia solar, eólica, até hídrica que é produzida em dado momento do dia, não é perdida. Devemos evitar sempre o stress dos recursos hídricos que são escassos, quer na produção de hidrogénio verde, que é basicamente juntar água com eletricidade ou na produção de amoníaco. Os data centers que usem recursos hídricos têm que ter cuidado, mas é para isso que temos a Agência Portuguesa do Ambiente e administrações de recursos hídricos".
Após a participação no painel sobre a "Energia Verde para a Economia Digital", Filipe Santos Costa disse ao Conta Lá que ao nível da atração de investimento, Portugal tem, neste momento, condições boas. Prova disso é que a invasão de larga escala da Ucrânia pela Rússia há quatro anos criou um choque energético que foi agora agravado por esta crise do Golfo, contudo, esta crise energética não afetou todos os países europeus de forma igual. "Afetou mais os países que dependiam do gás natural importado por gasodutos a partir da Rússia, o que não é o caso de Portugal", frisou.
"Podemos nos lembrar das políticas que foram lançadas em 2005. O choque tecnológico e a aposta nas renováveis permitiram que tivéssemos este sucesso na transição energética digital, aproveitando estas vagas geopolíticas, esta crise energética que favoreceu o mix energético e os preços praticados na Península Ibérica tornaram-se mais competitivos em relação ao resto da Europa", acrescenta o investigador.
O investigador conlui que, com a base do sucesso que Portugal conseguiu ao longo dos últimos 20 anos, ao assumir um papel pioneiro na dupla transição energética digital, ou seja, tanto na produção de eletricidade de fontes renováveis por um lado, como em infraestruturas de telecomunicações, por outro, "temos hoje todas as condições para atrair grandes investimentos da economia digital". "É isso que esta conferência na Covilhã pretende impulsionar", remata.