Tempestades deixam arrozais em suspenso: "As contas só se fazem quando a água baixar”
As tempestades que têm atingido Portugal deixaram imagens de campos inundados um pouco por todo o território e os arrozais não foram exceção. Mas, ao contrário do que pode parecer, ver água nos campos nesta altura do ano não é, por si só, sinal de desastre. O alerta, para já, é outro: o risco maior pode surgir quando a água começar a escoar, com correntes capazes de danificar as estruturas que “armam” os arrozais.
Carlos Amaral, presidente da Associação de Orizicultores de Portugal (AOP) - produtores de arroz - descreve o que o setor está a viver como “o resultado destes 10, 12 dias de uma intempérie que não é normal existir, ao mesmo tempo, em Portugal inteiro”. Ainda assim, sublinha que a inundação dos arrozais em fevereiro é expectável, por serem zonas de baixa cota e com drenagem difícil: “Nesta altura do ano é normal que eles sejam inundados, porque o arroz é feito em zonas de cota muito baixa, normalmente, com dificuldades de drenagem”.
O que não é habitual, explica, é a quantidade de água acumulada: “o normal dos nossos campos de arroz é estarem inundados… O que não costuma estar é tanta água.” E é precisamente esse “a mais” que pode tornar-se problema, não tanto hoje, mas nos próximos dias.
Quando a água baixar é que se fazem as contas
Para o presidente dos orizicultores, ainda é cedo para falar em prejuízos concretos. A prioridade, neste momento, é acompanhar a evolução do tempo e perceber como os campos vão reagir quando a água começar a sair de forma natural.
“O que é que pode acontecer agora quando a água sair? Que haja correntes e que possam causar danos, sobretudo na armação dos terrenos”. A “armação” a que se refere é uma peça-chave dos arrozais: os muros de terra que delimitam cada talhão e permitem gerir a água de forma gradual.
“Os terrenos de arroz têm que ter de volta dos canteiros um muro de terra, esse muro de terra normalmente chama-se maracha, que define a zona onde está a água e que depois a água vai passando de uns para os outros.” Essa circulação é fundamental para a cultura, porque a água não serve apenas para regar, "é um regulador térmico para a planta do arroz”. Ou seja, não é a presença de água que surpreende, mas sim o potencial estrago que o escoamento pode provocar, desde erosões nas marachas a danos em linhas de água, taludes e acessos.
E na prática, o que pode ficar danificado?
Amaral admite que podem existir prejuízos adicionais, sobretudo em equipamentos que, por estarem perto de linhas de água, não tenham sido retirados a tempo: “pode haver algum equipamento de rega, de bombagem que esteja ainda ao pé das linhas de água e que não tinha sido tirado a tempo.” Mas volta a insistir: as certezas só chegam depois. “Eu acho que só mais 15 dias é que a gente pode ter a noção da dimensão".
E se houver danos relevantes, os produtores terão de avaliar se conseguem absorver os custos ou se será necessário recorrer a apoios: “Quando a água sair é que nós vamos ver quanto é o prejuízo e se os próprios agricultores conseguem alocar isso na sua exploração ou se têm que bater à porta do governo”.
O dirigente acrescenta que o Ministério da Agricultura já terá verbas pensadas para estas situações, ainda que sublinhe ser "cedo para se falar nisso.”
“Notícias bombásticas” e o calendário real do arroz
Outro ponto que o presidente da AOP faz questão de clarificar é o timing da cultura. Em fevereiro, a produção ainda está longe do período crítico, e as imagens de arrozais cheios não significam automaticamente um problema na colheita.
“O arroz é produzido entre maio e outubro e começa-se a fazer a preparação dos terrenos quando é possível, no final de fevereiro, março”. É por isso que Carlos Amaral pede prudência na forma como o tema é tratado publicamente, depois de ter vindo a público uma notícia que dava conta de prejuízos na ordem das dezenas de milhões de euros: “O que se passa aqui é tentar-se arranjar notícias bombásticas para um caso que não existe”.
Isto não significa ignorar o risco. Significa não entrar em “modo pânico” antes do tempo.
A palavra de ordem é expectativa
Perante um inverno mais instável e difícil de prever, a associação prefere um estado de alerta sem dramatização. Questionado sobre o posicionamento do setor, Amaral escolhe a palavra expectantes. "Talvez seja o melhor adjetivo: expectantes”, atira.
E é fácil de explicar porquê. Quando a chuva abrandar, rios e linhas de água tendem a reduzir caudais, permitindo observar os campos e registar danos com mais rigor. “Progressivamente, os campos vão começar a ter condições de se fazer uma observação e registar-se, na verdade, os prejuízos que aí estão”, elabora.
A par disso, deixa um apelo ao tom público e ao equilíbrio. “Eu acho que quando há problemas grandes, tem que haver muita serenidade, para ninguém entrar em parafuso", refere. E remata com uma imagem clara do estado do setor: “Na parte do arroz, está a serenidade posta, porque temos que esperar um bocadinho”.
A preocupação de fundo: “o nosso problema não são as cheias”
Apesar do foco imediato estar no tempo, Carlos Amaral não resiste a apontar o que considera ser o maior risco estrutural para a fileira do arroz em Portugal, que ultrapassa a meteorologia: “o nosso problema é a chamada política agrícola europeia”.
A crítica centra-se na entrada de arroz importado a preços muito baixos, que, segundo diz, deixa o produtor nacional sem defesa. “A Europa está de portas abertas a arroz de Myanmar e Paquistão, que entram a um preço perfeitamente irrazoável e sem defesa nenhuma do produtor português”, contesta.
Para a associação, trata-se de uma concorrência injusta, tanto pelo preço, como pelas regras. “Não existe nenhuma legislação ambiental, social, nem produtiva nesses países. E nós não temos possibilidade de fazer frente a essas importações. É uma concorrência completamente desleal. Isso é que nos preocupa”, afirma Carlos Amaral.
Ainda assim, o dirigente não tem dúvidas sobre o valor do produto nacional, lembrando a qualidade do carolino, por exemplo, como “uma coisa inacreditável, inacreditável.” O problema, diz, é que o mercado, sobretudo a grande distribuição, insiste em competir pelo custo: "continuam a batalhar no preço e não na qualidade”.