"Tenho os meus homens a dormir em tendas no parque de viaturas. De resto não vejo ajudas de ninguém"

No debate da parte da tarde em Pedrógão Grande em que o Conta Lá se encontra como parte da nossa viagem pela Estrada Nacional 2, o comandante dos Bombeiros Voluntários de Pedrógão Grande, Augusto Arnaut manifestou indignação perante as condições em que os seus operacionais se encontram alojados na sequência dos estragos provocados pela depressão Kristin. E não esqueceu as marcas pessoais e profissionais dos incêndios de 2017.
Tiago Oliveira Jornalista

"Desculpe-me a expressão, mas é a realidade que estamos a passar, toda a gente ignora". É assim, sem floreados, que Augusto Arnaut responde sem contemplações à pergunta da jornalista Isabel Osório sobre as condições em que se encontram os bombeiros de Pedrógão Grande, quando o munípicio e a região ainda se encontram a recuperar do mau tempo de fevereiro e se preparam para mais um verão quente e com incêndios potencialmente disruptivos.

No debate da tarde que marcou mais um dia da operação "Nacional 2: o país que conta", o o comandante dos Bombeiros Voluntários de Pedrógão Grande foi lesto em apontar o dedo às seguradoras e à demora burocrática pela demora em fornecer os fundos para a reconstrução do quartel, cuja estrutura foi criticamente danificada pela depressão Kristin. "É o Pedrogão no seu melhor e no seu pior. A torre de comunicações caiu, o teto e o telhado estão todos destruídos".

E não fica por aqui: "Tenho os meus homens a dormir em tendas no parque de viaturas. De resto não vejo ajudas de ninguém", atira, com a agravante que houve "visitas de todas as entidades políticas" e que "todas prometeram ajuda". 

Se é certo que "as tendas são dignas, cedidas pelo INEM", com "ar condicionado" e vários comodidades, não deixa de ser grave que meses após as tempestades, os operacionais "terem que atravessar todo o parque de viaturas para fazer as suas necessidades. Não é digno", concluiu. Por isso, quando questionado se sente revoltado, a resposta é um sentido "acho que sim".

Solução provisória

"Até interrogo aqui se vale a pena ter seguro ou não", acrescenta, porque "quem não tem, já iniciou obras com apoios", enquanto a corporação de bombeiros continua a trabalhar e viver sem as melhores condições. "Concorremos a tudo o que é apoio", explica, sem deixar de reforçar que "o socorro" nesta fase exigente "não está em causa". Mas, claro, "qualquer comandante quer o melhor para os seus homens".

Confrontado com esta questão, o presidente da Câmara Municipal de Pedrógrão Grande, João Marques, realçou ser "fundamental que a associação de bombeiros tenha um projeto de recuperação", ao mesmo tempo que vincou que o "grande problema é que as companhias de seguros não respondem com a celeridade que deviam" e que "ainda não se sabe qual é o valor exato dos prejuizos causados", ou que pelo menos, "a câmara não tem esse valor".

Falamos de um processo de avaliação de um projeto de recuperação que "tem que ser feito pelos bombeiros, não pode ser feito por mais ninguém", apesar de "o impasse ser sempre o problema das obras públicas". E volta a lembrar: "Ainda não há nem projeto de intervenção para lançar o concurso, isso tem que ser acelerado". Com a certeza que "as obras vão deixar o quartel compeltamente operacional, talvez melhor". Até lá, mantém-se a "solução provisória".

Palavras que continuam a marcar um concelho que é sinónimo de tragédia natural desde os incêndios de 20217. Augusto Arnaut já era presidente da corporação de bombeiros então, e assumindo que não estava preparado para responder a perguntas sobre esse episódio, falou de algo que o continua a acompanhar, até como arguido "durante oito anos", em que acabou absolvido, por causa desses fogos. Ao longo desse período, não largou o comando, e não escondeu a dificuldade que tal significou, além da "mágoa" que representa o concelho ficar associado aos incêncios. Já o espírito de missão manteve-se e mantém-se inalterado.