Tomada do Carvalhal no Fundão celebra 136 anos de resistência popular
Foi há 136 anos, mas o momento de resistência popular e de uma luta desigual que o povo do Souto da Casa conseguiu vencer através da união continua muito presente na memória coletiva. Todas as Quartas-Feiras de Cinzas, às 9h30m, são hasteadas as bandeiras na Junta de Freguesia do Souto da Casa, de onde o povo segue em romagem até ao local na Serra da Gardunha onde há 136 anos foi feita história com a Tomada do Carvalhal.
Em 1890 a abastada família Garrett, casa senhorial agrícola no distrito de Castelo Branco, e que explorava as pastagens do sítio do Carvalhal, quis apropriar-se do cultivo das terras comunitárias. Os sinos tocaram a rebate, o povo juntou-se e opôs-se às demandas do feitor. Mesmo após a intervenção das autoridades, e da insistência dos Garrett, a persistência do povo prevaleceu. O feitor foi obrigado a transportar um tronco de castanheiro até ao Souto da Casa e a responder que o Carvalhal era da população.
Este ano, a tradição volta a cumprir-se. Se no passado só se levava o essencial e a caminhada era feita a pé, com enxadas, ancinhos e outros utensílios agrícolas ao ombro, tal como ramos de árvores, hoje a tarefa é facilitada pelos acessos. Há quem vá a pé desde a aldeia ao sítio do Carvalhal, numa caminhada organizada, mas outros tantos deslocam-se de carro até ao local onde é servido o almoço e, em convívio, se lembra um acontecimento simbólico para as gentes locais, ao som de pífaros e bombos.
“Homenagear a bravura dos nossos antepassados”
Passados 136 anos, centenas de pessoas continuam a gritar: “De quem é o Carvalhal? É nosso!”. Ao tiro de morteiro, rumam ao local, na Serra da Gardunha, para comemorar a sublevação dos antepassados. “O Carvalhal não era nem poderia ser propriedade de uma só pessoa, mas sim de todo o povo do Souto da Casa, que era quem trabalhava e amanhava aquelas terras desde sempre”, salienta o município do Fundão.
Para Dores Ladeira, nascida e criada na localidade, a Tomada do Carvalhal tem um significado simbólico e histórico. “O povo revoltou-se contra a tentativa dos Garrett de ficar com os baldios, que eram essenciais para o sustento da população. Esta é uma forma de homenagear a bravura dos nossos antepassados, uns guerreiros que lutaram pelo que era de todos. Foi uma revolta popular, de enxadas no ar. Não houve sangue, mas podia ter dado muito mau resultado”, comenta, em declarações ao Conta Lá, a residente, de 69 anos.
Segundo Dores Ladeira, o acontecimento tornou-se símbolo da terra e “fundamental para a identidade da comunidade”, a ponto de estar presente e facilmente ir passando de geração em geração. No passado, a data era aproveitada para demarcar os talhões de terra que cada pessoa ia cultivar nesse ano. A partida era dada com um tiro e os mais rápidos garantiam as melhores parcelas. Hoje, é um dia de festa.
“Momento de coragem excecional”
Guilherme Parente, de 22 anos é, desde este mês, presidente da Junta de Freguesia e desde pequeno que participa na celebração da Tomada do Carvalhal. Aos cinco anos começou a ir na romagem com o grupo de bombos do Souto da Casa, que integrava.“A Tomada do Carvalhal foi um momento de coragem excecional, onde as famílias se uniram para enfrentar o poder, algo raro em Portugal na época, num contexto nada favorável a manifestações de descontentamento”, realça.
Ao longo dos anos a Tomada do Carvalhal também serviu de inspiração a várias criações, desde a música a peças de teatro e exposições. Acredita o autarca que a celebração anual “é um momento que evoca essa união” e é também um símbolo “de convívio” e uma oportunidade de “transmitir a história da luta dos antepassados às gerações futuras”.