Transportes gratuitos no Porto: medida não vai "provocar mudanças radicais por si só" sem um reforço da oferta

A proposta de transportes públicos gratuitos no Porto pode não ter o impacto esperado sem reforço do serviço. “Não provoca mudanças radicais por si só”, alerta Frederico Francisco, convidado da Objetiva, que defende que aumentar a frequência e a oferta é essencial para atrair mais passageiros.
João Nogueira
João Nogueira Jornalista
22 abr. 2026, 11:58

A gratuitidade dos transportes públicos é um tópico quente que tem sido centro de debate nos últimos anos, muito para tentar encontrar as vantagens e desvantagens da sua adoção para os sistemas de mobilidade e se efetivamente funcionaria para que as pessoas passassem a usar mais os transportes públicos.

No especial informativo do programa Juca desta terça-feira, a Objetiva, a mobilidade regressou ao tema em discussão, à boleia das notícias recentes de que o Porto irá avançar com transportes gratuitos possívelmente ainda no verão e também da intenção do Governo em criar um passe intermodal nacional.

A nível nacional, o Governo quer simplificar e mais longe depois de declarar que o "passe ferroviário Verde foi um sucesso". A proposta passa por criar um passe único que permita circular em vários meios de transporte, em diferentes regiões, sem a complexidade atual.

Para Frederico Francisco, antigo secretário de Estado das Infraestruturas e atual deputado do PS, o problema está identificado: “há muita gente que, no meio dessa complexidade, desiste e vai de carro”. Por isso, o convidado considera que simplificar o sistema “é uma ideia indiscutivelmente positiva”.

Ainda assim, há dúvidas sobre o calendário. “Não sei se será possível fazê-lo no prazo de meses”, admite, apontando dificuldades técnicas na integração dos sistemas, principalmente devido a diferenças de tarifários. Mesmo assim, reconhece progressos: “estaremos hoje mais próximos de isso ser possível do que estávamos há três anos”.

 

Preço não é o que pesa mais, mas sim as frequências

Enquanto isso não avança, o Porto já quer ir mais longe. A autarquia aprovou um modelo para tornar os transportes públicos gratuitos para residentes, uma medida que poderá custar mais de 20 milhões de euros por ano e que pode avançar já em 2027, ou até antes. Esta foi, na verdade, uma promessa durante a campanha nas autárquicas do atual autarca, Pedro Duarte.

O mesmo assumiu o risco e a ambição: “estamos a viver tempos novos, tempos diferentes” e é preciso “uma atitude arrojada”. O objetivo, diz, é claro: “privilegiar o bem-estar das pessoas, a qualidade de vida, o equilíbrio ambiental e a sustentabilidade”.

Contudo, Frederico Francisco deixa reservas quanto à medida: “A gratuitidade dos transportes públicos, por si só, não costuma provocar mudanças radicais”, afirma, sublinhando que o preço não é o único fator na decisão das pessoas.

O ponto crítico, explica, é a oferta. “Passarem comboios de 20 em 20 minutos ou de 10 em 10, passarem 5 autocarros por hora ou passarem 10” é o que realmente pesa. E reforça: “se fosse possível gastar 25 milhões e outro tanto a aumentar a oferta, aí sim teria um efeito positivo indiscutível”.

Os números ajudam a perceber o desafio que está em cima da mesa. No Porto, mais de metade das deslocações são feitas de carro, enquanto os transportes públicos ficam pelos cerca de 23%. Ainda assim, estes dados não contam toda a história. “Se nós alargarmos essa análise, a dependência do automóvel é ainda maior”, explica o deputado, apontando para a dinâmica da área metropolitana.

E isso cria tensões locais, referiu, argumentando que, atualmente, “o Porto não quer deixar entrar mais carros, e os municípios à volta querem acessos mais facilitados”.

Mesmo nos grandes centros, há lacunas. Em Lisboa, por exemplo, “há inúmeras deslocações que não são cobertas por metro”, o que obriga muitos a depender de transportes pouco fiáveis. “Uma pessoa tanto pode demorar 15 minutos como 50, e ninguém confia num sistema assim”, disse Frederico Francisco.

No interior, o cenário é ainda mais exigente. “Há sedes de concelho que não têm um transporte público rápido para a capital de distrito mais próxima”.