Três alunos da comunidade cigana em Oliveira do Bairro inauguram programa para reduzir abandono escolar

Três alunos do ensino secundário de Oliveira do Bairro foram apoiados pelo programa ‘Roma Educa’, numa iniciativa que tem como objetivo diminuir o abandono escolar comum entre jovens da comunidade cigana no concelho, mas que continua a revelar um alcance ainda limitado face aos desafios.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
06 mai. 2026, 08:00

Num percurso onde o abandono escolar continua a acontecer cedo demais, três alunos de Oliveira do Bairro conseguiram ficar. No meio de trajetos muitas vezes interrompidos antes do fim, a atribuição de três bolsas do programa ‘Roma Educa’ pode não mudar tudo, mas pode ser decisiva para que estes jovens não desistam.

Os três alunos, todos do ensino secundário e pertencentes à comunidade cigana, foram selecionados com base em critérios definidos pela escola. “Tem a ver, sobretudo, com a relação com a escola, com a assiduidade e com o comportamento”, explica o diretor do agrupamento de escolas de Oliveira do Bairro, Joaquim Almeida, em entrevista ao Conta Lá. A estes fatores junta-se o aproveitamento, num processo que procurou identificar quem já demonstrava capacidade de continuidade.

O impacto vai além do desempenho escolar. “Em primeiro lugar, muda a imagem que os alunos têm – e o que os outros têm sobre eles – porque, dentro da comunidade cigana, destacam-se pela positiva”, sublinha o diretor. Esse reconhecimento transforma a relação com a escola: “Dá-lhes motivação para a verem como o espaço onde podem crescer e vingar.”

Ainda assim, o percurso continua instável. “Como estão em ambientes bastante frágeis, estão suscetíveis de poderem quebrar a determinado momento”, admite. A bolsa funciona, por isso, como um fator de estabilização: “É uma força que lhes é dada para evitar esse possível abandono.”

O apoio, atribuído pela AIMA – Agência para a Integração, Migrações e Asilo, cobre despesas como transportes, alimentação e material escolar, respondendo a obstáculos concretos que continuam a afastar muitos alunos da escola.

Mais do que recursos, o desafio está na relação com a escola

As dificuldades persistem e não se explicam apenas pela falta de meios. “As grandes dificuldades têm a ver com uma questão cultural: com o facto de entenderem que a escola não lhes traz nada”, explica Joaquim Almeida, apontando para um bloqueio que continua a condicionar o percurso educativo.

Apesar disso, há sinais de evolução. O agrupamento tem registado menos abandono e menos retenções, com mais alunos a concluir a escolaridade obrigatória dentro do tempo previsto. Embora o ensino superior ainda não faça parte deste percurso, a conclusão do 12.º ano começa a tornar-se mais frequente.

Este progresso resulta de um trabalho articulado entre escola, autarquia e serviços sociais. “Funciona bem porque há aqui uma relação tripartida que rapidamente chega à família e consegue atuar no terreno perante situações de negligência”, explica o diretor, sublinhando a importância da intervenção conjunta.

Ainda assim, o próprio reconhece os limites da medida. “Por si só não é suficiente, mas é uma grande motivação”, afirma, explicando que a continuidade depende também do compromisso dos alunos ao longo do tempo.

Entre incentivo e exceção: uma mudança que ainda não chega a todos

Do lado da autarquia, o diagnóstico é semelhante. “Claro que está longe do necessário”, admite o vereador da Câmara Municipal de Oliveira do Bairro, Luís Rabaça. Ainda assim, num universo nacional de cerca de duas centenas de bolsas, a aprovação de três candidaturas no concelho é vista como um sinal positivo.

Para o autarca, estas bolsas representam um incentivo concreto à continuidade. “Tenho algumas dúvidas de que estes alunos, sendo tão poucos os que chegam a este nível, conseguissem continuar sem este apoio”, afirma, apontando para o impacto direto da medida no percurso escolar.

Ao mesmo tempo, sublinha que a mudança exige mais do que políticas públicas. “Há heranças culturais, há rotinas de gerações que não podemos negar”, afirma, defendendo que o processo tem de ser gradual. A integração depende de um esforço conjunto: “É como um bailarico: precisa de dois. Um oferece, o outro tem de querer dançar.”

No concelho, houve quatro candidaturas. Uma ficou pelo caminho por desistência. As restantes três avançaram, todas no ensino secundário. O número é reduzido, mas revela um dado mais significativo: há alunos a chegar mais longe, mas continuam a ser poucos os que entram neste percurso.