Três alunos da comunidade cigana em Oliveira do Bairro inauguram programa para reduzir abandono escolar
Num percurso onde o abandono escolar continua a acontecer cedo demais, três alunos de Oliveira do Bairro conseguiram ficar. No meio de trajetos muitas vezes interrompidos antes do fim, a atribuição de três bolsas do programa ‘Roma Educa’ pode não mudar tudo, mas pode ser decisiva para que estes jovens não desistam.
Os três alunos, todos do ensino secundário e pertencentes à comunidade cigana, foram selecionados com base em critérios definidos pela escola. “Tem a ver, sobretudo, com a relação com a escola, com a assiduidade e com o comportamento”, explica o diretor do agrupamento de escolas de Oliveira do Bairro, Joaquim Almeida, em entrevista ao Conta Lá. A estes fatores junta-se o aproveitamento, num processo que procurou identificar quem já demonstrava capacidade de continuidade.
O impacto vai além do desempenho escolar. “Em primeiro lugar, muda a imagem que os alunos têm – e o que os outros têm sobre eles – porque, dentro da comunidade cigana, destacam-se pela positiva”, sublinha o diretor. Esse reconhecimento transforma a relação com a escola: “Dá-lhes motivação para a verem como o espaço onde podem crescer e vingar.”
Ainda assim, o percurso continua instável. “Como estão em ambientes bastante frágeis, estão suscetíveis de poderem quebrar a determinado momento”, admite. A bolsa funciona, por isso, como um fator de estabilização: “É uma força que lhes é dada para evitar esse possível abandono.”
O apoio, atribuído pela AIMA – Agência para a Integração, Migrações e Asilo, cobre despesas como transportes, alimentação e material escolar, respondendo a obstáculos concretos que continuam a afastar muitos alunos da escola.
Mais do que recursos, o desafio está na relação com a escola
As dificuldades persistem e não se explicam apenas pela falta de meios. “As grandes dificuldades têm a ver com uma questão cultural: com o facto de entenderem que a escola não lhes traz nada”, explica Joaquim Almeida, apontando para um bloqueio que continua a condicionar o percurso educativo.
Apesar disso, há sinais de evolução. O agrupamento tem registado menos abandono e menos retenções, com mais alunos a concluir a escolaridade obrigatória dentro do tempo previsto. Embora o ensino superior ainda não faça parte deste percurso, a conclusão do 12.º ano começa a tornar-se mais frequente.
Este progresso resulta de um trabalho articulado entre escola, autarquia e serviços sociais. “Funciona bem porque há aqui uma relação tripartida que rapidamente chega à família e consegue atuar no terreno perante situações de negligência”, explica o diretor, sublinhando a importância da intervenção conjunta.
Ainda assim, o próprio reconhece os limites da medida. “Por si só não é suficiente, mas é uma grande motivação”, afirma, explicando que a continuidade depende também do compromisso dos alunos ao longo do tempo.
Entre incentivo e exceção: uma mudança que ainda não chega a todos
Do lado da autarquia, o diagnóstico é semelhante. “Claro que está longe do necessário”, admite o vereador da Câmara Municipal de Oliveira do Bairro, Luís Rabaça. Ainda assim, num universo nacional de cerca de duas centenas de bolsas, a aprovação de três candidaturas no concelho é vista como um sinal positivo.
Para o autarca, estas bolsas representam um incentivo concreto à continuidade. “Tenho algumas dúvidas de que estes alunos, sendo tão poucos os que chegam a este nível, conseguissem continuar sem este apoio”, afirma, apontando para o impacto direto da medida no percurso escolar.
Ao mesmo tempo, sublinha que a mudança exige mais do que políticas públicas. “Há heranças culturais, há rotinas de gerações que não podemos negar”, afirma, defendendo que o processo tem de ser gradual. A integração depende de um esforço conjunto: “É como um bailarico: precisa de dois. Um oferece, o outro tem de querer dançar.”
No concelho, houve quatro candidaturas. Uma ficou pelo caminho por desistência. As restantes três avançaram, todas no ensino secundário. O número é reduzido, mas revela um dado mais significativo: há alunos a chegar mais longe, mas continuam a ser poucos os que entram neste percurso.