Troço da A1 em Coimbra desabou. Reparação "demorará semanas"
Como conseguência do rompimento do dique nos Casais, Coimbra, o tabuleiro do viaduto da autoestrada A1 desabou, adiantou à Lusa fonte da GNR. O abatimento ocorreu na placa sobre o aterro que dá acesso ao viaduto naquela zona.
Fonte do Comando Geral da GNR confirmou à Lusa danos na plataforma da A1, na zona junto ao local onde o dique rebentou em Casais, na margem direita do Mondego, ao quilómetro 191. A Brisa já tinha confirmado ao final da tarde de hoje que o trânsito na A1 foi cortado entre o nó de Coimbra Norte e Coimbra Sul, em ambos os sentidos, devido ao rebentamento de um dique no rio Mondego.A GNR indicou que a principal alternativa a este corte é o Itinerário Complementar 2 (IC2).
O incidente ocorreu após a infraestrutura na margem direita do Rio Mondego ter rebentado ao fim da tarde de quarta-feira. Fonte da Proteção Civil confirmou à Lusa que ocorreu uma rutura do dique em Casais, na margem direita do Mondego, junto da ponte da autoestrada, ao quilómetro 191.
A Proteção Civil admite que durante a primeira noite após rompimento do dique a situação se mantém "estável e não houve necessidade de deslocar mais pessoas durante a noite”, mas o nível de alerta das populações aumentou, uma vez que o rio Mondego saiu fora dos seus limites.
Fonte dos bombeiros indicou ao Conta Lá que, além da rutura de um dos diques, que levou ao desabamento do troço da A1, houve também, já esta quinta-feira, uma rutura na parte direita do canal condutor geral (canal de rega) implantado ao longo do dique direito do Mondego.
A rutura faz com que a água deste canal de rega esteja a sair, em menor quantidade do que comparada com a rutura junto à A1, para os campos do Mondego na zona do Centro Náutico de Montemor, ainda que com alguma distância deste espaço.
Rio galgou
João Grilo, que tem uma propriedade agrícola perto do local, estava a vistoriar as margens quando aquela parte do canal principal do Mondego rebentou, pelas 17h45 desta quarta-feira. De acordo com este empresário agrícola, há o perigo de haver um novo rebentamento também na margem direita, junto ao Centro Hípico de Coimbra, mais a montante.
Já Armindo Valente, também empresário agrícola e vice-presidente da Associação de Beneficiários da Obra Hidroagrícola do Mondego, confirmou o rebentamento do dique direito do canal principal do Mondego, tendo assistido à água a galgar a margem direita do rio para dentro do canal de rega adjacente.
“Eu estava lá em cima, na autoestrada [A1], porque fui informado que a água estava a galgar de dentro do Mondego para dentro do canal de rega. Saí de lá e, nem cinco minutos depois, o dique cedeu debaixo da autoestrada”, explicou.
Indicou que a água que está a sair do canal principal do Mondego está a inundar os campos do bloco de rega de São Martinho do Bispo, na margem direita, no município de Coimbra.
A povoação de São Martinho do Bispo fica na margem esquerda do Mondego, e não está a ser diretamente afetada por este rebentamento.
Questionado sobre qual o percurso desta água nas próximas horas, Armindo Valente explicou que a enxurrada irá, à partida, na direção do município de Montemor-o-Velho e povoações de Casal Novo do Rio e Ereira, esta última isolada há uma semana precisamente pela água acumulada no vale central.
Armindo Valente frisou que com o rebentamento da margem a água poderá ficar nos campos agrícolas, entre o canal principal do Mondego e o chamado leito periférico direito - que recolhe água das povoações ao longo da estrada nacional (EN) 111 e as canaliza para o Mondego, a jusante da povoação de Alfarelos (Soure) – mas também poderá partir o dique esquerdo do periférico direito e ameaçar diretamente o município de Montemor-o-Velho, tal como sucedeu em 2019.
“Se a água entrar no periférico direito [partindo a margem esquerda desse leito], depois só a margem direita impedirá que chegue ao Casal Novo do Rio, a Montemor-o-Velho e à Ereira. Vamos ver se as margens aguentam”, explicou.
Por outro lado, após as cheias de 2019, o município de Montemor-o-Velho fez pressão para que fosse instalado (o que sucedeu) um “dique fusível” entre os campos agrícolas e o periférico direito, precisamente para poder receber água que vem do vale central, sem que a margem desse leito quebrasse.
Esse dique só poderá funcionar se a altura de água acumulada nos campos for superior à que corre no periférico direito, o que agora deverá suceder, com o rebentamento do dique.
Por seu turno, o município de Montemor-o-Velho, numa nota publicada na rede social Facebook, sublinhou que o colapso da margem direita do canal principal do Mondego, “apesar de gravoso, não compromete, para já, a segurança de pessoas, uma vez que as águas vão para o campo, onde ainda existe alguma capacidade de encaixe”.
Os campos a que o município de Montemor-o-Velho se refere localizam-se mais perto de Coimbra e não possuem tanta água acumulada como sucede mais a jusante, nas zonas de Montemor-o-Velho, Ereira e freguesias de Maiorca e Ferreira-a-Nova, já no concelho da Figueira da Foz.
No entanto, o município defendeu a necessidade de “vigilância e atenção redobrada” das populações das zonas mais baixas de Tentúgal, Meãs do Campo, Carapinheira – localizadas junto à estrada nacional (EN) 111 - Montemor-o-Velho e Ereira.
A quebra da margem direita do Mondego acabou por suceder na sequência de avisos das autoridades de que isso podia acontecer, face à precipitação esperada ao longo do dia desta quarta-feira, alertas esses formulados na noite de terça-feira.
O colapso é semelhante ao que sucedeu em 2019, embora, na altura, o dique direito tenha partido numa zona a montante da ponte de Formoselha, localizada cerca de 10 quilómetros rio abaixo do local onde a margem agora colapsou.
Ao longo desta quarta-feira, o caudal do rio Mondego na Ponte-Açude de Coimbra, ultrapassou os 2.100 metros cúbicos por segundo (m3/s) – o valor mais elevado desde o início da crise, há duas semanas – e acima do caudal de 1.990 m3/s registado nas grandes cheias de 2001, quando as margens quebraram em 12 locais.
Reparação na A1 irá demorar "semanas". A8/A17/A25 ou IC2 ou são as alternativas
O ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, admitiu que serão precisas várias semanas para reparar o troço da A1 que desabou.
Durante uma visita ao local, Pinto Luz sublinhou aos jornalistas "a velocidade e a violência das águas", que descreveu como "uma situação absolutamente anormal".
"Temos 15 camiões com enrocamento para reforçar a quebra que surgiu. [Esta quinta-feira] mais camiões vêm reforçar com enrocamento", disse Pinto Luz, citado pela RTP Notícias.
O recurso a enrocamento, blocos de rocha compactados, "é a única coisa que nós podemos fazer enquanto as águas não descerem", admitiu o ministro. Pinto Luz disse também que a fissura, no sentido norte-sul, "pode alastrar" para o outro sentido.
O dirigente acrescentou que, "enquanto as águas não descerem não se pode fazer a intervenção de fundo". "Serão seguramente semanas para conseguirmos que esta infraestrutura volte a estar ao serviços dos portugueses", disse Pinto Luz.
"O compromisso do Governo é de absoluto comprometimento com esta solução. Estamos com todos os meios mobilizados e não sairemos daqui enquanto não conseguimos com todas as equipas colocar outra vez a A1 em funcionamento", garantiu o ministro.
Entretanto, a concessionária Brisa sugeriu aos automobilistas a utilização de vias alternativas à interrupção da autoestrada no sentido Norte-Sul junto ao nó de Coimbra Sul, ao quilómetro 191, através do corredor A8/A17/A25 ou o IC2.
"Não sendo possível, neste momento, estimar o prazo de conclusão das obras de reparação", a Brisa admitiu estar empenhada em "minimizar transtornos" e que "poderão ser usadas como vias alternativas o corredor A8/A17/A25 ou o IC2".

Zona de desabamento da A1 em Coimbra. Imagem: Conta Lá
Primeiro-ministro admite novas ruturas no dique junto a Coimbra
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, admitiu esta quarta-feira novas ruturas no dique nas margens do rio Mondego, junto Coimbra, e pediu aos cidadãos comportamentos responsáveis e respeito pelas instruções das autoridades.
Numa conferência de imprensa na Proteção Civil de Coimbra, onde esta quarta-feira um dique rebentou na margem direita do rio Mondego, nos Casais, junto ao viaduto da autoestrada 1 (A1), Luís Montenegro destacou que novas ruturas poderão ocorrer e ser prejudiciais para as populações nos perímetros mais expostos a estas cheias.
“Isto provocará naturalmente um efeito de cheia, que será um efeito lento, que já está a começar a atingir populações, quer no concelho de Coimbra, quer de Montemor-o-Velho. Por isso, não quero deixar de alertar para a possibilidade de outras ruturas poderem vir a acontecer nas próximas horas”, disse o responsável.
Todos os cidadãos devem respeitar as instruções dos elementos das autoridades, nomeadamente se lhes for pedido que abandonem as habitações, apesar dos incómodos e inconvenientes que isso traz à vida das pessoas, porque as autoridades estão “mesmo a tratar da segurança das pessoas em primeiro lugar e, naturalmente, também da segurança dos seus bens”, acrescentou.
“Temos ainda pela frente horas de precipitação intensa”, salientou o governante.
Luís Montenegro destacou ainda que na quinta-feira poderá haver um desagravamento da chuva, “mas isso não vai diminuir a necessidade de vigilância”, uma vez que na noite de quinta para sexta-feira está prevista novamente precipitação forte que pode afetar a resistência do dique que liga Coimbra à Figueira da Foz.
O primeiro-ministro saudou também a atitude preventiva das autoridades e autarcas e afirmou que “todo o dispositivo” que o Estado tem está no terreno”.
“É uma situação, de facto, muito exigente, temos noção disso, mas quero deixar uma palavra de tranquilidade e serenidade, porque todo o dispositivo que o Estado português tem está no terreno, toda a cooperação e articulação entre todas as forças está a acontecer”, disse.