Um ano depois, o apagão que abalou a Península Ibérica ainda levanta alertas e revela novos desafios da transição energética

Um ano após o apagão ibérico de 2025, especialistas defendem que a origem do problema esteve em Espanha e exigem medidas sobretudo desse lado da fronteira. O relatório da ENTSO-E aponta para uma combinação de falhas técnicas e afasta ligação direta às energias renováveis.
Agência Lusa
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28 abr. 2026, 08:57

Um ano depois do apagão ibérico, especialistas ouvidos pela Lusa sublinham que Portugal respondeu rapidamente, mas defendem que prevenir incidentes semelhantes exige coordenação ibérica e medidas sobretudo em Espanha.

O relatório final dos peritos europeus (ENTSO-E) concluiu que o incidente resultou de uma combinação de fatores técnicos, incluindo limites de tensão diferenciados, baixa carga nas linhas, falhas em sistemas de proteção e insuficiências no controlo dinâmico da tensão, afastando uma relação direta entre o apagão e a produção renovável.

Para o antigo presidente da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) e professor do ISEG Vítor Santos, o documento europeu sustenta de forma sólida a explicação técnica do incidente. “O relatório foi elaborado por um grupo de peritos independentes e de excecional competência que utilizaram metodologias de análise e avaliação adequadas e que foram tão longe quanto seria possível na recolha da informação”, afirmou.

Ainda assim, considera que o apagão não revelou apenas um problema de operação de rede. “É preciso dizer claramente que o apagão teve a sua origem em Espanha e resulta de insuficiências aos três níveis que refere”, disse, numa referência aos planos técnico, regulatório e de incentivos.

Segundo o especialista, a transição energética está a colocar novas exigências à gestão do sistema elétrico. “A transição energética confronta a gestão global do sistema elétrico com novos desafios: gestão de mais recursos, mais dispersos e de menor dimensão”, afirmou.

Vítor Santos assinalou também que “o crescimento rápido da geração de produção variável (eólica e, sobretudo, solar) tem reflexos na redução da inércia [a ‘almofada’ que ajuda a manter a frequência estável quando há desequilíbrios na rede] e do controlo da potência reativa e, por isso mesmo, exige um reforço adicional da regulação da frequência e da tensão”.

O especialista apontou ainda para redes “mais complexas e com mais inversão de fluxo”, a exigir “uma coordenação crescente entre os operadores das redes de transporte e distribuição”, num contexto em que a geração distribuída aumentou de forma expressiva e deverá continuar a crescer.

Sobre a resposta portuguesa, Vítor Santos destacou o trabalho desenvolvido nos últimos anos pelas entidades do setor. “A REN, a E-Redes, a ERSE e a DGEG [Direção-Geral de Energia e Geologia] têm vindo a desenvolver, desde há muitos anos, um trabalho persistente e muito consistente de adaptação da rede elétrica aos novos desafios da transição energética” de acordo com as regras definidas pelos regulamentos da União Europeia”, afirmou.

Também João Peças Lopes, docente da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), considera que a explicação técnica do incidente é clara. “Tratou-se de um problema de colapso de tensão por sobretensão na rede de Espanha”, afirmou, atribuindo o episódio à incapacidade dos mecanismos de controlo dinâmico de tensão das instalações de geração em operação para manter níveis adequados de tensão.

Quanto às medidas adotadas em Portugal, o diretor do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC) foi taxativo: “Os problemas nunca estiveram em Portugal”. Segundo o especialista, Portugal adotou cedo medidas de apoio ao controlo de tensão em cenários de forte integração de renováveis, incluindo o contributo das centrais solares para apoio à rede.

Para o responsável, a prevenção de novos incidentes depende sobretudo do lado espanhol. “O apagão teve início em Espanha e é em Espanha que é necessário implementar medidas para evitar repetições deste tipo de incidentes”, afirmou, acrescentando que o regulador e o operador do sistema em Espanha têm vindo a alterar procedimentos e a operar de forma prudente.

Entre as medidas que considera prioritárias, João Peças Lopes defendeu “aumentar a observabilidade e controlabilidade da rede”, promover a instalação de “compensadores síncronos e baterias de escala industrial equipadas com conversores eletrónicos operados em modo 'grid forming'” - capazes de ajudar a ‘formar’ e estabilizar a rede elétrica, em vez de apenas se ligarem a ela -, remunerar novos serviços de sistema para controlo de tensão e frequência e reforçar as ferramentas de monitorização da segurança dinâmica.

O especialista alertou, porém, que a resposta não pode ser apenas nacional. “Medidas isoladas tomadas por Portugal serão sempre incompletas para resolver quaisquer problemas técnicos ou regulatórios de um sistema elétrico fortemente interligado e onde o sistema elétrico espanhol é cinco vezes maior que o de Portugal”, afirmou.

Em 28 de abril de 2025, a Península Ibérica sofreu uma falha elétrica que deixou milhares de pessoas às escuras por várias horas, sem acesso a transportes, comunicações e serviços básicos.

Apesar da natureza inédita do colapso, considerado o apagão mais grave no sistema elétrico europeu em mais de 20 anos pela ENTSO-E, a restauração da rede foi rápida, com Portugal a recuperar totalmente a ligação de alta tensão pouco depois da meia-noite e Espanha às 04:00 do dia seguinte.