Um código funcional para lá da estética: como são escolhidas as cores dos transportes públicos
Todos os dias seguimos cores quase sem pensar. “Linha azul”, “apanha a amarela” ou “troca na verde”. Seja no metro, no autocarro ou nos mapas da cidade, as cores associadas às linhas tornaram-se um idioma silencioso. Mas não estão lá por acaso ou muito menos por estética. Por trás de cada linha colorida há decisões pensadas, que cruzam o design, a identidade urbana e a inclusão.
Em Portugal, as cidades com metro, Lisboa e Porto, contam a história de formas diferentes, mas o objetivo é o mesmo: tornar a cidade e os transportes mais legíveis e facultar a sua utilização.
Quando, nos anos 90, o Metro de Lisboa deixou de ser uma única linha em forma de “Y” e passou a dividir-se em percursos diferentes, surgiu a necessidade de distinguir os trajetos. Além de criar uma cor para cada traçado, a Metro acabou por criar uma identidade completa para cada.
Foi assim que nasceu uma lógica que ainda hoje estrutura o metro da capital: cada linha tem uma cor, um nome e um símbolo. Azul, Amarela, Verde, Vermelha. Mas também Gaivota, Girassol, Caravela e Astrolábio, respetivamente.
No fundo, tratam-se de analogias. A Gaivota aponta para o Tejo e a frente ribeirinha, a Caravela evoca o mar e a história dos Descobrimentos, o Astrolábio fala de orientação e de uma Lisboa virada a Oriente.
Mas como são escolhidas as cores?
As opções seguem princípios internacionais de design de informação, muito à boleia de outras redes de transportes europeias que surgiram primeiro. Mas Lisboa foi além disso, fugindo da cor como código único. "Se a cor falhar, o símbolo continua a orientar", disse em resposta ao Conta Lá a empresa metropolitana. É uma escolha que beneficia todos e que pretende ser mais inclusiva. A rede foi, recentemente, também reforçada com a introdução do sistema ColorAdd, pensado para utilizadores daltónicos.
No Porto, a lógica é mais direta, mas igualmente estratégica. As cores das linhas do metro foram escolhidas para serem imediatamente distinguíveis entre si. A primeira foi a azul, desde o Estádio do Dragão até Matosinhos, e as seguintes tiveram de garantir um contraste máximo. Surgiu então a Laranja,Verde, Amarela, e por aí fora.
Ainda assim, há espaço para identidade local: a futura Linha Rubi, que está agora em construção e que vai ligar Santo Ovídio, em Vila Nova de Gaia, e a Casa da Música, no Porto, não esconde a inspiração no vinho do Porto e nas caves de Gaia, território por onde vai passar. O traçado, inclusive, vai passar por uma nova ponte que está a ser construída sobre o Rio Douro, que tem o nome de ponte Ferreirinha, uma homenagem à famosa empresária do Vinho do Porto, D. Antónia Ferreira.

Foto: Imagem projeto da nova ponte sobre o Rio Douro, em construção. (Metro do Porto)
Autocarros não são exceção
Já à superfície, nos autocarros da STCP, no Porto, também foram distribuídas cores à rede da Área Metropolitana. Cada concelho ganhou uma tonalidade associada ao seu carácter e identidade: o amarelo de Matosinhos lembra o sol e a praia; o verde da Maia aponta para os espaços naturais; Valongo surge a vermelho, pela seu caráter mais industrial; Gondomar ficou com o lilás, numa referência ao Douro e à urze; Gaia aparece a laranja, numa alusão à temperatura da água das suas praias. Inevitavelmente o azul ficou com o Porto, pelo rio, a cidade e o clube.

A numeração ajuda, mas a cor junta-se ao trabalho de identificação e orientação. Numa rede que nunca dorme e mantém atividade durante a noite, a rede da madrugada da STCP é marcada a preto.
Além das cores, também há outro dado curioso sobre como a rede foi pensada. "A numeração da rede segue o sentido dos ponteiros do relógio, partindo do centro para a periferia. As linhas que servem Matosinhos iniciam-se na série 500, seguindo-se a Maia (600), Valongo (700), Gondomar (800) e Vila Nova de Gaia (900)", esclarece a empresa de autocarros do Porto. Uma vez que se situa no centro da rede, a cidade do Porto concentra as linhas das séries 200, 300 e 400.