Um pequeno inseto vindo de Itália está a ajudar a salvar os castanheiros portugueses

A vespa-das-galhas chegou a provocar perdas de até 80% na produção de castanha em Trás-os-Montes. Hoje, os produtores começam a recuperar graças a um combate biológico que devolveu esperança a uma das culturas mais importantes do Nordeste Transmontano.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
02 jun. 2026, 08:00

Quando a vespa-das-galhas-do-castanheiro chegou a Portugal, há mais de uma década, os produtores de castanha de Trás-os-Montes perceberam rapidamente que estavam perante uma ameaça sem precedentes. A praga, conhecida cientificamente como Dryocosmus kuriphilus, espalhou-se pelos soutos, atacando rebentos e folhas, enfraquecendo as árvores e provocando quebras severas na produção. Numa região onde a castanha continua a ter um peso económico, social e cultural determinante, o impacto fez-se sentir muito para além das explorações agrícolas.

“Quando a praga apareceu, foi tremendo para nós. Chegámos a ter 70% a 80% de quebras de produção quando esta praga veio para o nosso território”, recorda Lino Sampaio, produtor de castanha há mais de 20 anos no distrito de Bragança e responsável por cerca de 40 hectares em modo de produção biológico.

A vespa-das-galhas, originária da Ásia, chegou à Europa através do comércio internacional de plantas e encontrou condições favoráveis para se expandir. Em Portugal, afetou particularmente o Nordeste Transmontano, onde se concentra uma parte significativa da produção nacional de castanha. Sem tratamentos químicos eficazes capazes de travar a praga, produtores, associações e entidades ligadas ao setor viram-se obrigados a procurar alternativas.

A solução acabou por surgir através de um pequeno aliado vindo de Itália. O Torymus sinensis, um parasitoide específico da vespa-das-galhas-do-castanheiro, revelou-se capaz de combater naturalmente a praga. Segundo Jorge Espírito Santo, responsável técnico da Agrifuturo, este inseto deposita os seus ovos dentro das galhas criadas pela vespa, permitindo que as suas larvas se alimentem dos ovos da praga e interrompam o seu ciclo de reprodução. “Foi considerado uma solução eficaz porque atua de forma específica sobre a vespa das galhas do castanheiro”, explica.

O também presidente da Agrifuturo, Lino Sampaio, acompanhou esse processo desde o início. “Aprendemos com os colegas de Itália e fomos buscar esse bichinho”, conta. A introdução do Torymus sinensis resultou de um esforço conjunto entre produtores, municípios, associações e entidades técnicas, que procuraram replicar em Portugal uma estratégia que já tinha demonstrado resultados positivos noutros países europeus.

O inseto ajuda, mas não faz milagres

Apesar dos sinais encorajadores registados nos últimos anos, os especialistas alertam que o sucesso do combate biológico não depende apenas do inseto.

Segundo Jorge Espírito Santo, existem já zonas onde o grau de parasitismo do Torymus sinensis é considerável, mas noutras os resultados continuam abaixo do esperado devido a práticas agrícolas que comprometem o seu desenvolvimento. Entre os principais erros estão a destruição das galhas, as pulverizações realizadas durante períodos críticos e a mobilização dos solos em momentos inadequados. Por isso, sublinha o técnico, as boas práticas agrícolas continuam a ser fundamentais.

No terreno, Lino Sampaio observa a mesma realidade. Embora reconheça a eficácia do controlo biológico, acredita que continua a existir falta de informação junto de muitos agricultores. “O que lhe posso dizer é que temos explorações em que a taxa de parasitismo é de 30%, 40%, 50%, e temos outras de 10% ou zero”, refere. Para o produtor, a diferença está frequentemente nos cuidados adotados por cada exploração.

A crítica surge de forma particularmente direta quando fala da destruição involuntária do trabalho desenvolvido pelo inseto. “Temos 20% a 30% dos produtores a fazer o trabalho como deve ser e temos 80% a destruir o que nós andamos a fazer”, lamenta.

A preocupação é partilhada pelos técnicos que acompanham o processo. A informação distribuída aos produtores recomenda que os ramos com galhas não sejam queimados, triturados ou removidos durante o inverno e a primavera, uma vez que é precisamente no interior dessas galhas que as larvas do Torymus sinensis passam essa fase do ciclo de vida. A destruição desses ramos reduz a população do parasitoide e compromete o controlo natural da praga. Por isso, a recomendação passa por deixar esses ramos no souto até que o inseto complete o seu desenvolvimento e possa continuar a combater a vespa.

Para Lino Sampaio, esta não é uma batalha que possa ser travada individualmente. “A chave do sucesso perante esta praga é que não posso ser eu sozinho. Tem de ser uma região toda, tem de ser o país todo. Temos de ser todos a fazer a mesma coisa no mesmo sentido”, defende.

Uma cultura que sustenta comunidades inteiras

Apesar dos progressos alcançados, os anos mais difíceis continuam bem presentes na memória dos produtores. “O terceiro ou quarto ano foi tremendo em termos de quebra de produção”, recorda Lino Sampaio. Para muitas explorações, a diminuição da colheita traduziu-se numa quebra significativa de rendimento e numa incerteza constante sobre o futuro dos soutos.

A importância da castanha em Trás-os-Montes vai muito além da dimensão económica. Em muitos concelhos do interior, a produção continua a ser uma fonte essencial de rendimento para centenas de famílias e um elemento profundamente ligado à identidade local.

Jorge Espírito Santo destaca precisamente esse impacto mais amplo. Além da produção agrícola, os castanheiros contribuem para a preservação da paisagem, da biodiversidade e da economia das regiões onde estão implantados. Uma praga desta dimensão, sublinha, afeta não apenas os produtores, mas comunidades inteiras que dependem desta atividade.

Apesar das dificuldades enfrentadas nos últimos anos, Lino Sampaio continua a acreditar no futuro da castanha portuguesa. A confiança não nasce apenas dos sinais de recuperação observados nos soutos, mas também do papel que este fruto continua a desempenhar na vida das pessoas.

“Tenho de acreditar que sim”, responde quando questionado sobre o futuro da produção nacional. E explica porquê através de uma imagem simples, mas reveladora: “As castanhas vão ter sempre este compromisso: elas não falam, mas juntam as famílias.”

Depois de anos marcados por perdas severas, a luta contra a vespa-das-galhas continua. Mas, nos soutos de Trás-os-Montes, um pequeno inseto vindo de Itália já provou que, por vezes, as maiores mudanças começam nas formas de vida mais pequenas.