Uma "bica" sem cafeína feita de leguminosas: projeto KÓFI quer reinventar o café
Num país onde o café faz parte da rotina diária, há um projeto que propõe uma alternativa improvável: uma “bica” feita a partir de leguminosas. O KÓFI, distinguido na 6.ª edição do Programa TalentA, aposta numa bebida sem cafeína que mantém o ritual e o sabor associados ao consumo tradicional.
A ideia teve como base a valorização de culturas muitas vezes desvalorizadas no mercado. “A KÓFI nasceu da vontade de valorizar as leguminosas e de criar formas de consumo mais sustentáveis, saudáveis e inovadoras”, afirma Anabela Pedro Seabra, fundadora do projeto, ao Conta Lá. A responsável sublinha que estas culturas têm “um enorme potencial, tanto do ponto de vista nutricional como agrícola”, mas continuam pouco exploradas.
Inspirado em práticas antigas, o projeto recupera o hábito de torrar grãos, sementes e raízes para criar bebidas nutritivas. A partir de leguminosas como o tremoço doce, o KÓFI desenvolveu uma alternativa ao café tradicional, sem cafeína, mas com um perfil sensorial semelhante. “Reinventámos o ritual do café”, explica a fundadora, apontando para uma bebida “com sabor único e preparada de forma semelhante ao café clássico”.
A proposta responde também a uma procura crescente por alternativas ao consumo de cafeína. “A KÓFI nasceu da necessidade de oferecer uma alternativa ao café que mantivesse o ritual e o sabor, mas sem os efeitos da cafeína, como ansiedade, insónia ou desconforto digestivo”, refere. O processo de produção segue uma lógica próxima da torrefação do café. Os grãos de leguminosas são selecionados, torrados e moídos, permitindo desenvolver “aromas complexos e um sabor rico e encorpado”. O resultado é uma bebida que pode ser consumida quente, fria ou em versões inspiradas em latte, mantendo a experiência associada ao café.
Além da vertente alimentar, o projeto assume uma ambição mais ampla ao nível agrícola. O objetivo passa por incentivar o cultivo de leguminosas e valorizar cadeias de produção mais sustentáveis. “Queremos criar uma cadeia que seja boa para as pessoas, para os agricultores e para o ambiente”, afirma Anabela Pedro Seabra, destacando a importância de promover culturas menos reconhecidas e reduzir o desperdício.
Reconhecimento e crescimento
A distinção no Programa TalentA surge como um impulso para o desenvolvimento do projeto. Para a fundadora, o prémio representa “motivação, visibilidade e novas oportunidades”, permitindo consolidar a iniciativa e reforçar o seu posicionamento no mercado. O KÓFI tinha já sido distinguido em fevereiro como Projeto de Elevado Potencial, num prémio promovido por associado do Crédito Agrícola, reforçando a validação da sua proposta.
Ao mesmo tempo, destaca o papel do programa no apoio ao empreendedorismo feminino em contexto rural. “Ser fundadora de um projeto agroalimentar enquanto mulher traz desafios reais, sobretudo num meio rural ainda maioritariamente liderado por homens”, admite. Ainda assim, sublinha que a experiência tem sido positiva e aponta a necessidade de inspirar outras mulheres a avançarem com projetos próprios.
Nos próximos meses, o foco passa por consolidar a presença no mercado nacional e explorar novos canais de distribuição. A marca prepara também o lançamento de uma versão portátil do produto, pensada para facilitar a expansão e chegar a mais consumidores.
Posicionando-se como uma alternativa ao café tradicional, o KÓFI procura afirmar-se num mercado em transformação, onde as preocupações com saúde, sustentabilidade e origem dos produtos ganham cada vez mais peso. “Mostramos que inovação, sabor e sustentabilidade podem caminhar juntos”, conclui a fundadora.