Uma vida entre livros: o artesão que há meio século preserva histórias em papel

Carlos Guerreiro é um dos últimos encadernadores, douradores e restauradores de livros em Lisboa. Mantém vivo um ofício em risco de desaparecer.

Raquel Loureiro
Nelson Costa Editor de imagem
João Franco Repórter de imagem
01 abr. 2026, 08:00

Carlos Guerreiro recorda com nitidez o momento em que descobriu a vocação, ainda em criança. “Lembro-me do primeiro dia. Chovia torrencialmente, estava frio, e depois havia o cheiro dos livros acabados de imprimir, a tinta offset. Ainda hoje tenho esse cheiro”, explica, em entrevista ao Conta Lá. Foi numa escola de aprendizagem profissional que iniciou o percurso como encadernador, dourador e restaurador.

Numa dos últimos espaços do ofício em Lisboa, guarda ainda um pequeno caderno que encadernou aos 13 anos, onde anotou registos pessoais, como a morada da irmã em Angola ou o local de trabalho da mãe. “Sempre tive uma paixão por isto. Às vezes estou tão concentrado que nem dou pelo tempo passar”, admite.

Com milhares de livros no currículo, Carlos Guerreiro sublinha a exigência técnica da profissão. “Para se fazer coisas como eu tenho aí feitas levei anos a aprender. A prática é a melhor amiga do artesão”, afirma, citando a mãe, que lhe ensinou que “dá tanto trabalho fazer mal como fazer bem”.

Aos 66 anos, prepara-se para a reforma, mas garante que não irá abandonar o ofício. Quer transmitir conhecimento às novas gerações através de workshops e alerta para o risco de desaparecimento destas profissões tradicionais. “O Estado português devia apoiar estas áreas porque estão em vias de extinção.”

Nos planos futuros, admite ainda escrever um livro sobre encadernação: “No fundo, uma história de vida”.