"Uma voz para a sobrevivência": bar libanês em Lisboa recolhe donativos para vítimas da guerra
Num bar de inspiração libanesa no Areeiro, em Lisboa, a guerra no Médio Oriente deixou de ser uma realidade distante. Entre pedidos de comida e conversas de fim de dia, o Levantino tornou-se um ponto de ligação direta entre a capital portuguesa e um país devastado por deslocações massivas, destruição de infraestruturas e uma crise humanitária que continua a agravar-se.
A iniciativa de angariação de donativos nasceu de uma ligação íntima ao território em conflito e rapidamente ganhou dimensão local. “A ideia de angariar doações no Levantino provém de uma ligação profunda e pessoal às nossas raízes. Com o Líbano a enfrentar atualmente uma invasão devastadora e mais de um milhão de pessoas deslocadas das suas casas, não podíamos simplesmente ficar de braços cruzados”, explicou Abdallah Zaher, cofundador do Levantino, em entrevista ao Conta Lá.
“Como uma marca construída sobre a cultura e a comunidade mediterrânica, sentimos a responsabilidade de agir.” E acrescentou: “Para nós, o Levantino sempre foi sobre cuidar através da comida; neste momento, isso significa sustentar a sobrevivência e a resiliência do povo libanês.”
Sem capacidade para intervir diretamente no terreno, a resposta passou por canalizar recursos a partir de Lisboa. A estratégia foi clara: optar exclusivamente por donativos monetários para garantir rapidez e eficácia na ajuda. “Cada euro recolhido, seja via MBWAY ou em dinheiro na nossa loja do Areeiro, é enviado diretamente para uma rede de confiança de líderes comunitários e iniciativas no Líbano. Este apoio sustenta cozinhas centrais que confecionam refeições quentes, fornece medicamentos e ajuda famílias com as suas necessidades”, reforçou.
Uma comunidade que responde
A milhares de quilómetros do conflito, a resposta da cidade surpreendeu. Segundo Abdallah Zaher, a mobilização em Lisboa revelou uma consciência coletiva que ultrapassa fronteiras. “A resposta das pessoas de Lisboa tem sido verdadeiramente emocionante. Temos visto, em primeira mão, como esta comunidade se identifica profundamente com a luta e compreende a urgência da nossa missão”, disse. “Muitos dos nossos clientes e vizinhos deram um passo em frente, não apenas para doar, mas para oferecer palavras de apoio, demonstrando um real sentido de humanidade partilhada.”
Este envolvimento ganha ainda mais peso quando comparado com a dimensão da crise no terreno. Desde o início da escalada recente do conflito entre Israel e forças no Líbano, mais de um milhão de pessoas foram forçadas a abandonar as suas casas, num cenário que várias organizações internacionais classificam como uma das mais graves crises humanitárias na região dos últimos anos.
“Uma luta pela sobrevivência”
Os relatos que chegam ao Levantino descrevem um cenário de colapso estrutural. “As necessidades que nos chegam do Líbano são absolutas e abrangentes. Estamos a testemunhar uma tentativa sistemática de cortar todos os meios de subsistência a mais de um milhão de pessoas deslocadas”, lamentou Abdallah Zaher. “Com pontes no Sul destruídas para impedir que as famílias regressem às suas casas, e os ataques deliberados a instalações médicas e socorristas, a situação ultrapassou uma crise humanitária: é uma luta pela sobrevivência.”
Ao mesmo tempo, descreve um território cada vez mais inviável para quem tenta regressar. “Ao destruir as nossas aldeias para criar ‘zonas tampão’, a invasão deixou uma população inteira sem casas, infraestruturas ou um caminho claro de regresso, tornando cada doação uma tábua de salvação literal para os que estão presos no fogo cruzado.”
Num país já fragilizado por anos de instabilidade política e económica – agravada pela crise financeira iniciada em 2019 e pela explosão no porto de Beirute em 2020 – o impacto da guerra atual intensifica vulnerabilidades pré-existentes. A destruição de infraestruturas e o deslocamento em massa colocam pressão adicional sobre recursos escassos, dificultando qualquer resposta organizada e sustentada.
Entre a distância e o impacto pessoal
Apesar de falar enquanto responsável por um espaço comunitário, Abdallah Zaher não esconde o impacto direto que a guerra tem na sua vida. “Embora isto me atinja pessoalmente, com a minha própria família deslocada e amigos perdidos, eu não sou o destaque aqui; o povo do Líbano é que é”, sublinhou. “A minha história é apenas uma de um milhão de histórias semelhantes que se desenrolam atualmente.”
Ainda assim, assume um papel ativo a partir de Lisboa. “O meu papel aqui é simplesmente ser uma voz para a sua luta e uma ligação direta para a sua sobrevivência. Estou a fazer a única coisa que posso à distância, garantir que a luta pela vida, dignidade e por um lugar para onde regressar seja ouvida e apoiada.”
Um espaço que interrompe a normalidade
Mais do que um restaurante ou bar, o Levantino assume agora uma função de mediação entre realidades. “Em tempos como estes, espaços como o Levantino servem principalmente como um catalisador para a sensibilização”, explicou. “O nosso papel é interromper essa normalidade. Atuamos como uma ponte e um lembrete de que, embora a distância seja grande, o custo humano é imediato.”
A iniciativa surge num contexto internacional marcado por tensões crescentes no Médio Oriente, onde o conflito entre Israel e diferentes atores regionais continua a provocar vítimas civis, deslocações em massa e instabilidade prolongada. A fragilidade dos cessar-fogos e a dificuldade em garantir ajuda humanitária eficaz agravam um cenário já complexo.
Sobre o papel de Israel na escalada recente, Abdallah Zaher aponta para dados da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL): “Desde que o cessar-fogo foi estabelecido, a 27 de novembro de 2024, Israel terá violado o acordo mais de 10.000 vezes. Estes não são apenas números num relatório; representam a perda de mais de 500 vidas, incluindo homens, mulheres e crianças que deveriam estar protegidos por esse mesmo acordo.”
Num espaço pequeno em Lisboa, a guerra ganha nomes, histórias e urgência. E entre donativos e testemunhos, o Levantino vai construindo uma ponte improvável – onde cada contribuição tenta encurtar a distância entre quem pode ajudar e quem luta, todos os dias, para sobreviver.