Vila Galé quer construir "habitações a preços controlados" para funcionários. "E não só"
"Ninguém quis saber". É desta forma que Jorge Rebelo de Almeida, presidente do grupo hoteleiro Vila Galé, classifica a política de habitação em Portugal ao longo de "12 anos", em que a situação piorou de forma incontornável e dificulta sobremaneira a vida de uma franja muito relevante da população. É um dos motivos por que revelou ter proposto às câmaras municipais de Lagoa de Lagos a criação de "habitações a preços controlados", em primeiro lugar para os funcionários do grupo, mas "não só", acrescenta de seguida.
O objetivo é abrir a solução à população naquele que pode ser o primeiro teste a um modelo a replicar noutras zonas do país, haja abertura dos municípios. "O que precisamos", questiona? "Ajuda nos terrenos", que neste caso já são pertença da Vila Galé, mas que estão afetados a "uso agrícola", o que classifica como uma burocracia "ficcional" que impede a construção. "Até já tenho os esquissos" para os edifícios a construir, revela.
Em conversa com os jornalistas no hotel Vila Galé Ópera, o empresário insurgiu-se com a falta de políticas, apoios e incentivos fiscais que promovam a construção de casas que a "classe média" possa efetivamente comprar, ao mesmo tempo que não esconde a preocupação com a falta de "soluções" da classe política, a nível governamental e a nível autárquico, perante uma situação de crise tão evidente. "Corremos o risco de voltar a ter barracas", acredita.
Por isso pede também uma "taskforce" de "gente cotada e credenciada" para "limpar os projetos antigos" que se acumulam nas câmaras municipais de "Lisboa, Porto, ou Sintra", por exemplo, e que seria um grande contributo para ajudar na resolução deste problema. "São milhares de projetos" que emperram tudo o resto, reforça.
Oportunidade perdida
O encontro foi mote para o anúncio dos resultados operacionais do grupo hoteleiro e dos projetos que estão em curso, num portefólio que conta atualmente com 12 projetos em construção, seis em Portugal e seis no Brasil. Penacova e Miranda de Douro são algumas das localidades em Portugal que vão conhecer novas unidades da Vila Galé, num investimento global orçado em €210 milhões. Já o ano de 2025 viu as receitas totais superarem os €321 milhões, o que significa um aumento de 15% face a 2024.
"Um ano positivo", resume o CEO do grupo, Gonçalo Rebelo de Almeida, que fala de uma "situação turisticamente estável", ao passo que revela que os portugueses "representam cerca de 50% dos hóspedes" do grupo. Já nas perspetivas para 2026, sobra a ideia que sem uma mudança significativa na situação aeroportuária de Lisboa, "durante 10/12 anos, o número de turistas não terá espaço para crescer".
O que pode significar uma "oportunidade perdida", porque há uma série de países asiáticos, como a Indonésia ou o Vietname, explica, de onde começam a surgir turistas em grande volume e que Portugal não tem neste momento capacidade para acomodar, face à falta de espaço na Portela e à longa perspetiva de construção do novo aeroporto em Alcochete. O que limita a expansão da indústria quando se fala da principal porta de entrada para o Alentejo, zona de Lisboa e região Centro.
Jorge Rebelo de Almeida compara a situação do aeroporto a "um gargalo" e defende a urgência de “encontrar alternativas ao aeroporto" enquanto se constrói a nova infraestrutura. Uma "solução intercalar", diz, que poderia ser em Alverca ou Sintra, ou então passar por uma fase temporária em Alcochete, a preparar em "três anos", apenas com "um terminal e uma pista simples", pronto a "receber clientes de low cost ou de charter".
Tudo para tentar aliviar um pouco a situação atual e ajudar receber "o fluxo de turistas que ainda estão à espera de vir para Portugal" e, quem sabe, conhecer o nosso "Interior maravilhoso" ainda com tanto por explorar. Falta visão, acusa, enquanto defende a "descentralização e não a regionalização", por esta implicar o acrescento de "estruturas de decisão", e pede "menos câmaras" mas "melhores". Como caso paradigmático, refere o distrito de Portalegre, onde existem "15 câmaras municipais para uma população quase inexistente".
Idiossincrasias estruturais que ainda assim não impedem Jorge Rebelo de Almeida de "continuar a acreditar que este país pode ser incrível". E mais: mesmo que pareça, "não é difícil".