Wiki Editoras Lx lutam pelo aumento da representatividade de grupos historicamente marginalizados
A internet funciona muitas vezes como reflexo da sociedade, e vice-versa, e os artigos disponíveis na Wikipédia, bem como a comunidade responsável por criá-los e editá-los reflete isso mesmo. Veja-se, por exemplo, a percentagem de artigos sobre mulheres presentes na versão portuguesa da encilopédia livre, que pode ser consultada no Human Wiki, e que está apenas ligeiramente acima dos 20% num universo de 272.947 mil artigos biográficos. Uma entre várias diferenças na representatividade que conhece um advesário que não dá tréguas nas Wiki Editoras Lx.
"O projeto Wiki Editoras Lx surgiu em maio de 2019, no contexto do Festival Feminista de Lisboa", explicam Ana Bragança, Flavia Doria, Isabel Branco, Isis Reis e Tila Cappelletto, parte do grupo que tem desenvolvido uma atividade incansável para que estas histórias e vozes não fiquem esquecidas. "Naquela altura, de todas as pessoas que editavam a Wikipédia, só 10% a 15% se identificavam como mulheres, e apenas 17% das biografias eram sobre mulheres. A participação e representação de outros grupos minorizados, como pessoas LGBTQIAP+, pessoas racializadas, pessoas migrantes nem sequer era medida pela Fundação Wikimedia", acrescentam. "Assim, a motivação principal para a génese do grupo foi tentar equilibrar estas disparidades".
O grupo utiliza "uma evidência anedótica recente" ilustrativa do cenário atual. Quando em março promoveram, "a convite da arquitecta, investigadora e professora da Universidade da Beira Interior, Patrícia Santos Pedrosa, uma maratona de edição na Wikipédia com alunas do curso de Arquitectura", com o intuito de "inserir algumas arquitetas notáveis na enciclopédia em português", uma das participantes comentou: “Foi surpreendente ver que várias arquitetas contemporâneas, com ateliês com muita produção de arquitetura, com obras premiadas, não tinham nem sequer a existência de uma página".
Assumem-se por isso como "uma comunidade dedicada a aumentar o conteúdo, acesso e participação de mulheres cis, pessoas trans e não-binárias na construção do conhecimento livre na internet, em especial em língua portuguesa, e através dos projetos Wikimedia". Nessa capacidade, reúnem-se "quinzenalmente para editar", com encontros que "alternam entre presenciais e online", com as reuniões a decorrerem agora à segunda-feira na Penha.Sco, na Penha de França, em Lisboa, e online à terça-feira".
Curva de aprendizagem
"Os encontros presenciais estão abertos a quem queira aprender a editar a Wikipédia, mas online são só para quem já participou de algum encontro presencial e queira editar em conjunto, tirar dúvidas, ou também partilhar algo novo que tenha aprendido". As editoras asseguram que "em todos estes encontros observamos a política de espaços seguros promovida pela Wikimedia, para garantir que todas as pessoas interessadas possam participar sem risco de bullying, assédio ou discriminação", algo que infelizmente grassa cada vez mais no espaço online.
Além disso, organizam "ainda alguns eventos mais estruturados durante o ano, como maratonas de edição (ou editatonas) com curadorias convidadas, oficinas, ilustratonas (maratonas de ilustração para dar mais visibilidade às biografias dos grupos com os quais trabalhamos), ou caminhadas para ter contato com histórias não contadas sobre o território". Moderam também "um grupo de chat" em que incluem "as pessoas participantes dos encontros" e que utilizam "para tirar dúvidas práticas que surjam fora das sessões de edição em conjunto, bem como para celebrar e divulgar novas páginas".
De forma a "tornar os espaços e eventos o mais acessíveis possível às pessoas cuja participação pretendemos encorajar", providenciam ajudas como "babysitting, refeições, ferramentas de acessibilidade como tradução para língua gestual portuguesa", entre outros. "Estamos sempre a tentar identificar barreiras à participação, para podermos eliminá-las na medida do possível. E a verdade é que temos muitas editoras que sem estas ferramentas estariam impossibilitadas de fazer parte do grupo", consideram.
Desde o início do ano que as Wiki Editoras Lx se tornaram uma cooperativa, "que conta com uma equipa profissional de cinco pessoas", mas importa realçar que, para a maior parte das pessoas que fazem parte do grupo, "editar a Wikipédia é uma actividade voluntária que exige tempo e certa dedicação, tendo também uma curva de aprendizagem longa". Ou seja, "quem mais trabalha, faz jornadas duplas, desdobra-se em trabalhos e tem menos tempo". Por isso "o que o grupo faz é justamente apoiar a reduzir o tempo necessário para a aprendizagem e oferecer apoio para que consigam encaixar a edição dentro das suas realidades".
Conhecimento humano
Um trabalho que talvez faça ainda agora mais sentido do que nunca, como resultado cumulativo da "própria produção de conhecimento" ser ainda "marcada por desigualdades que se foram cristalizando ao longo da história. A Wikipédia é um reflexo disso, mas não é um caso isolado", apontam. "Mecanismos de busca, arquivos digitais, bases de dados, portais de notícias e sobretudo as ferramentas de inteligência artificial reproduzem lacunas existentes", porque "quem teve historicamente acesso à educação, ao próprio registro escrito e aos espaços de poder, teve mais chances de ser documentado e de ter sua memória preservada".
O que influencia também, registe-se, "quais fontes são consideradas confiáveis, relevantes ou notórias", quando "muitos grupos historicamente marginalizados tiveram e têm ainda hoje menos acesso aos espaços institucionais de registro e legitimação do conhecimento". É o caso do "registo indígena, validado unicamente pelo registo académico ou jornalístico, o que acaba por contribuir para uma marginalização continuada", esclarecem.
Por outro lado, "é fundamental destacar que com a popularização dos modelos de linguagem de grande escala, especialmente dos chatbots, a questão da equidade de conhecimento, que é o foco do nosso trabalho, volta com força". Neste momento, elaboram, todos esses os modelos "são treinados com conteúdo da Wikipédia", ao mesmo que, em muitos casos, "a experiência de pesquisa na Internet está a migrar para essas interfaces conversacionais", pelo que garantir "que haja conteúdos representativos, diversidade linguística, e autoria inclusiva torna-se absolutamente essencial e urgente". Já com o advento da inteligência artificial generativa, em que "as novas gerações correm o risco de passar a acreditar que a informação que consomem vem de um robô", torna mais necessário trabalhar de maneira colaborativa e coletiva para que ninguém se esqueça que o conhecimento é e sempre será, humano. Imperfeito, mas humano. E a Wikipédia é o melhor exemplo disto".
Para o futuro, acreditam "que iniciativas como a nossa nutrem o desejo de um dia deixarem de ser necessárias por já vivermos numa sociedade mais equânime". O que hoje não deixa de parecer difícil, "tendo em vista o crescimento do machismo online, dos discursos de ódio em nível nacional e global, e das tentativas de apagamento de determinados grupos". Por outras palavras, "ainda há muito trabalho a ser feito". Motivos mais do que suficientes que explicam porque "fazer parte de um projeto de conhecimento construído de maneira colaborativa em mais de 300 línguas como a Wikipédia, e demais plataformas Wikimedia, é a coisa mais radical que alguém pode fazer atualmente". O repto não podia ser mais claro: "Vem resistir com a gente!".