“A VCI tem de voltar às suas raízes e tornar-se uma via urbana”: especialista vê nova ligação externa como solução, mas deixa reservas

A nova circular intermédia entre a VCI e a CREP pode representar uma das maiores transformações na mobilidade do Porto nas últimas décadas. Ainda assim, o especialista Álvaro Costa deixa reservas ao projeto anunciado pelo Governo, defendendo que a cidade precisa de menos carros, mais transporte público e uma VCI mais integrada no espaço urbano.
João Nogueira
João Nogueira Jornalista
13 mai. 2026, 13:07

Este é mais um capítulo para a VCI que, há décadas pensada exclusivamente para os carros, começa a ganhar espaço também ao nível de urbanismo e integração na cidade. O anúncio de uma nova ligação externa para o Porto, feito após a reunião entre o primeiro-ministro e os autarcas das duas maiores cidades do país esta terça-feira, promete aliviar um dos maiores pontos de pressão do trânsito na Área Metropolitana.

Embora receba o anúncio com um ótimo agrado, o especialista em transportes Álvaro Costa realça que o verdadeiro desafio vai muito além de criar novas estradas: é preciso “devolver a cidade às pessoas” e transformar a VCI numa via urbana, e não numa autoestrada que corta o Porto ao meio. O professor da Universidade do Porto foi o entrevistado convidado da Objetiva, espaço de informação do programa Juca.

Para contexto, este tema esteve em destaque na reunião entre o primeiro-ministro, Luís Montenegro, e os presidentes das câmaras do Porto e Lisboa, esta terça-feira. No final do encontro, o Governo anunciou uma nova via intermédia entre a VCI e a Circular Regional Exterior do Porto (CREP), apresentada como uma solução para retirar tráfego da Via de Cintura Interna.

Para Álvaro Costa, a medida pode representar uma mudança importante na mobilidade da Área Metropolitana do Porto, sobretudo porque responde a um dos principais problemas da cidade: o atravessamento automóvel norte-sul.

“Os veículos estão a vir muito ao centro da cidade para fazer este atravessamento. Se criarmos uma alternativa mais próxima do núcleo urbano do que a CREP, isso é excelente”, explicou o professor.

O especialista acredita que a nova ligação poderá aliviar significativamente o nó de Francos e reduzir a pressão sobre a VCI, mas deixa um aviso de que o sucesso do projeto depende da forma como a cidade vai reorganizar o espaço libertado.

“A VCI tem de voltar às suas raízes e tornar-se uma via urbana”, defendeu Álvaro Costa, que considera que a zona da Ponte da Arrábida deveria regressar a uma lógica mais integrada na cidade, com circulação mais suave, espaços pedonais e até recuperação da componente ciclável que existiu no passado.

E é por isso que demonstrou reservas em relação ao túnel previsto a poente, anunciado pelo presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte. “O que me preocupa é que se mantenha tudo igual. Fazer um túnel é continuar a trazer carros para este espaço urbano”, afirmou.

 

Transportes têm de ganhar mais espaço urbanisticamente

Ao longo da entrevista, Álvaro Costa insistiu que a mobilidade não pode continuar centrada apenas no automóvel e defendeu uma articulação forte entre os novos projetos rodoviários e os transportes públicos.

“O que a cidade precisa é de uma estrutura urbana bem articulada com transportes rápidos”, disse, apontando a necessidade de corredores BUS eficientes, elétricos urbanos e uma rede complementar ao Metro do Porto, com paragens mais próximas e adaptadas à vivência da cidade.

O professor criticou ainda a solução do metrobus na Avenida da Boavista, considerando que “desarticulou o espaço” ao apostar numa lógica demasiado próxima da de uma autoestrada urbana.

Na visão do especialista, a nova circular só fará sentido se servir para retirar tráfego da VCI e permitir transformar aquela zona numa verdadeira área urbana de coesão. “Os espaços são espaços de vivência. Os carros devem circular pela nova circular externa e a cidade deve ser devolvida às pessoas”.