"A resposta ao apagão não pode ser usada para alimentar medo em relação às renováveis"

No dia em que se celebra 1 ano do apagão sem paralelo que deixou Portugal e Espanha praticamente um dia sem energia, a Greenpeace Portugal alerta para o perigo da ocorrência ser utilizada para justificar retrocessos no uso de fontes de energia mais sustentáveis.
Tiago Oliveira Jornalista

É o uso do medo como estratégia para evitar o desenvolvimento das energias renováveis e prolongar a dependência do gás fóssil e de tecnologias mais caras, poluentes e pouco flexíveis, que a Greenpeace denuncia na data em que se celebra o 1º aniversário do apagão que afetou a Península Ibérica a 28 de abril de 2025.

Para o diretor da Greenpeace Portugal, em nota divulgada à imprensa, “a resposta ao apagão não pode ser usada para alimentar medo em relação às renováveis, nem para defender soluções que mantêm o país dependente de combustíveis fósseis. Pelo contrário, deve servir para acelerar as decisões que Portugal já devia estar a tomar: modernizar a rede elétrica, reduzir a dependência do gás, investir em armazenamento e preparar o sistema para uma economia cada vez mais eletrificada,” acredita Toni Melajoki Roseiro.

O apagão afetou de forma significativa Portugal continental e Espanha, interrompendo o fornecimento de eletricidade a milhões de pessoas e com impactos nos transportes, nas comunicações, nos serviços públicos, nas empresas e na vida quotidiana das famílias. Em Portugal, a ocorrência deixou bem clara a vulnerabilidade de infraestruturas essenciais perante uma falha sistémica e reforçou a necessidade de acelerar a modernização e a resiliência do sistema elétrico.

De acordo com os relatórios técnicos publicados até ao momento, o apagão teve como base uma combinação de fatores ligados ao controlo da tensão, à gestão da potência reativa e à coordenação da rede e à resposta dos operadores. No caso português, o relatório europeu afastou responsabilidade direta de Portugal na origem do incidente, que teve início no sistema elétrico espanhol, mas a dimensão dos impactos mostrou como a segurança energética da Península Ibérica depende de sistemas mais robustos, mais flexíveis e mais preparados para responder a perturbações.

Coordenação eficaz

A organização aproveita a ocasião para desmontar alguns mitos relacionados com a quebra energética, com ênfase na ideia que havia renováveis a mais. Já a realidade espalhada no relatório ENTSO-E torna evidente que a falha não teve a ver com as tecnologias usadas para produzir eletricidade, mas sim com a forma como essas tecnologias estavam a operar, nomeadamente no controlo da tensão. A segurança do sistema depende de uma rede preparada, de serviços de flexibilidade, de armazenamento, de uma boa gestão da procura e de uma coordenação eficaz entre operadores.

Por outro lado, também se insurge contra um possível apelar à importância da energia nuclear como forma de evitar apagões e travar o avanço das renováveis. Na opinião da organização, um sistema elétrico dependente de centrais nucleares é menos resiliente e menos flexível. Já a dependência do gás natural em Portugal também é alvo de críticas, porque, aponta a Greenpeace Portugal, embora as centrais de ciclo combinado a gás tenham desempenhado um papel na recuperação do serviço depois do apagão, isso não significa que devam ser tratadas como solução permanente para a segurança energética. Sobretudo quando a dependência do gás fóssil mantém Portugal exposto à volatilidade dos preços internacionais.

A organização também aponta mira à ideia que só com renováveis não é possível estabelecer um sistema energético funcional. Segundo o estudo "Energia para viver melhor", da responsabilidade da Greenpeace, Portugal e Espanha podem abandonar os combustíveis fósseis e a energia nuclear, sem apagões, até 2040, graças a uma redução da procura energética total de 39% e cobrindo 100% da procura com energias renováveis.

“O caminho para uma maior segurança energética também passa por aproximar a energia às pessoas", elabora Toni Melajoki Roseiro. "O autoconsumo e as comunidades de energia são essenciais para aproximar a produção das pessoas, reduzir desperdícios, aliviar a pressão sobre o sistema e tornar as famílias, as empresas e até as autarquias, uma parte ativa da solução. A segurança energética do futuro constrói-se com mais renováveis mas também com mais democracia energética, justiça e capacidade de resposta.” 

Importa também realçar que primeiro aniversário do apagão acontece, precisamente, durante a primeira Conferência Internacional para uma transição para lá dos combustíveis fósseis, em Santa Marta, na Colômbia.