"As localidades estão muito expostas e continuamos a construir edifícios nas arribas." Depois das tempestades, "é a altura de repensar" as cidades

Depois da destruição provocada pelas tempestades, Paula Teles, Engenheira Civil-Planeamento do Território defende que a reconstrução deve ser vista como uma oportunidade para transformar o território de forma integrada e sustentável. A posição foi assinalada numa entrevista à jornalista Estela Machado na rubrica Informação Objetiva, do programa Juca.
Rui Mendes Morais
Rui Mendes Morais Jornalista
Redação
Redação
24 mar. 2026, 15:41

Depois das tempestades que, no final de janeiro e início de fevereiro, deixaram um rasto de destruição em várias regiões do país, o momento que se segue não é apenas de reconstrução, é também de oportunidade para planear melhor. 

Para Paula Teles, Engenheira Civil-Planeamento do Território, é altura de “aprender com erros” e olhar para este momento como “uma oportunidade” para encontrar alternativas mais viáveis. Em entrevista à jornalista Estela Machado na rubrica Informação Objetiva, do programa Juca, a especialista destacou a importância dos engenheiros e arquitetos “trabalharem de forma integrada”. 

Este momento é um ponto de viragem que Portugal não pode desperdiçar, devendo olhar para as falhas estruturais no modelo de desenvolvimento seguido nas últimas décadas, apostando numa reforma profunda na forma como se planeia e constrói o território. A reconstrução das áreas afetadas surge assim como uma oportunidade única para corrigir erros antigos, desde o desenho das ruas até à escolha dos materiais. Para Paula Teles, amensagem é clara: “Reconstruir não pode ser sinónimo de repetir”, sendo prioridade a aposta num planeamento urbano novo. 

“É altura de repensar nos materiais do chão das cidades, nas árvores a colocar” sendo também uma oportunidade “para pensar a mobilidade” e olhar para a necessidade de “mitigar as alterações climáticas”, humanizando e ao mesmo tempo baixando as temperaturas. A especialista levantou a questão: “Será que não é uma oportunidade para repensar os pavimentos em termos de materiais de construção?” A resposta é afirmativa e reflete a “urgência climática de apostas nesta necessidade”

Além disso, Portugal, pela sua geografia, encontra-se particularmente vulnerável. “As localidades estão muito expostas (…), temos uma zona litoral muito grande (…), continuamos a construir edifícios nas arribas (…). Temos tido acima de tudo uma ausência do planeamento do território (…) ,temos de nos desviar das linhas de água (…). A estrutura verde e a estrutura azul tem de ser mais integradas”.

Outro ponto crítico é o conhecimento técnico, frequentemente “muito negligenciado”, sobretudo ao nível do solo. As autarquias surgem como atores-chave neste processo, com instrumentos como os Planos Diretores Municipais (PDM), que, segundo Paula Teles, precisam de estar alinhados com novas estratégias. “É muito importante que estes planos (…) se alinhassem com (…) os Planos de Mobilidade Sustentável (…). Deviam estar muito bem casados”.

Neste contexto, até eventuais atrasos na execução de fundos europeus podem ser vistos como uma oportunidade estratégica, pelo que o facto do governo poder querer adiar o PRR, “pode ser benéfico, porque neste momento, se já estávamos atrasados, com o problema da catástrofe ambiental que existiu recentemente, ainda mais estamos”, reforça. Num país cada vez mais exposto a fenómenos extremos, a forma como se reconstrói agora poderá definir a resiliência de amanhã.