Vila de Rei rejuvenesce com a chegada de imigrantes: "Temos mais crianças e uma creche nova"
Vila de Rei traz consigo o título do concelho mais central do país. É no Centro Geodésico que bate o coração de Portugal, com o miradouro do Picoto da Melriça a permitir vislumbrar, a mais de 600 metros de altitude, um vasto horizonte que alcança desde a Serra da Lousã até à Serra da Estrela, a quase 100 quilómetros de distância.
Terra de natureza em estado puro, é nas praias fluviais sobre o rio Zêzere, na aldeia de Xisto de Água Formosa e nos Passadiços do Pendo Furado, com a atração das cascatas naturais, que a vila tem os seus bens mais valiosos, sendo o turismo um motor de desenvolvimento em ascensão nos últimos anos.
O concelho, dividido em três freguesias – uma das quais com o título de freguesia com menos eleitores do continente – e com quase uma centena de aldeias dispersas, tem no isolamento da população dois grandes desafios diários.
Na emissão especial do Conta Lá pela Estrada Nacional 2, ouvimos Mónica Duque, coordenadora do Contrato Local de Desenvolvimento Social (CLDS 5G) que deu como exemplo para fazer frente a este cenário um projeto pioneiro, “Esperança Porta a Porta”, que “uma vez por mês levamos uma unidade móvel a 73 aldeias, às pessoas idosas mais isoladas, com visitas domiciliárias para responder a necessidades, desde rastreios de saúde, levar medicação, fazer a ponte com serviços municipais”.
Mas se o isolamento é muitas vezes sinónimo de envelhecimento, Vila de Rei está a inverter a tendência dos territórios no interior do país.
A vinda de imigrantes, o aumento do número de crianças e um concelho a rejuvenescer
Os Censos de 2021 mostram que Vila de Rei tinha 3279 habitantes, um ligeiro decréscimo face a 2011, quando a população chegava aos 3452. Os dados do INE referiam na altura um envelhecimento demográfico, pese embora o concelho tenha sido dos que menos quebra registou no distrito de Castelo Branco.
Ao Conta Lá, o presidente do município, Paulo César Luís, refere que hoje a realidade é diferente, com os dados intercalares a darem conta de “um salto demográfico que fez com que Vila de Rei fosse um dos municípios do país com índice de rejuvenescimento maior”.
Isso mesmo é revelado pelo Portada, que, num estudo feito aos 308 municípios do país, refere que Oleiros, Penamacor e Vila de Rei são os três municípios no país com maior rejuvenescimento de população entre 2021 e 2024.
E esse efeito de renovação de gerações sente-se, desde logo no “número de crianças em jardim de infância, em creche e no 1º ciclo”, diz o autarca. “Temos muito mais crianças, ao ponto de termos de construir mais salas de jardim de infância, uma creche nova, mais salas de 1º ciclo.”
Mais nascimentos, mais crianças que são consequência também da chegada de imigrantes ao território.
“Temos os dados necessários para perceber que a nossa população aumentou na linha do que tem aumentado em toda a região pela vinda de imigrantes, pelo nascimento de novas crianças e pelo retorno de pessoas, umas para usufruir da terceira idade, outras para terem oportunidade de trabalho e outras porque o seu trabalho o permite fazer remotamente em território onde a qualidade de vida é maior”, enumera o presidente da Câmara.
O autarca fala mesmo num “salto demográfico decorrente da vinda de população imigrante para ocupar trabalhos que estavam sem ninguém”.
Uma terra quase sem desemprego, onde falta mão de obra mas há casa para todos
“O desemprego não é um problema, temos uma taxa muito baixa, ronda os 3%, é muito baixa”, admite o presidente da Câmara de Vila Rei.
Num concelho onde também a procura de empresas para se instalar cresce a cada dia. O vereador com o pelouro do turismo, Miguel Silva, admite ao Conta Lá a procura crescente pelo Centro de Instalação de e Empresas e Serviços, uma incubadora de empresas.
“Estamos a ampliar este edifício, porque há mais empresas a quererem-se instalar, desde a parte de arquitetura, destilaria, da construção civil até empresas de turismo, de informática, de alojamento web”, enumera.
Numa terra onde o trabalho não falta, para atrair trabalhadores é preciso também oferecer condições, nomeadamente na habitação. A esse nível Vila de Rei tem “praticamente prontos 35 novos fogos habitacionais para fixar gente no território”.
O difícil mesmo é, diz o autarca local, arranjar mão de obra capaz de dar resposta às necessidades do concelho.
“Ainda hoje temos falta de mão de obra nalgumas áreas, nas IPSS do concelho, no apoio à terceira idade, na construção civil, na área florestal”, enumera o edil.
É nesta última área, a da floresta, que o desafio é maior em Vila de Rei, tal como nos concelhos vizinhos. Num território fustigado por grandes incêndios, uma das principais entidades que atua no terreno, a Florzêzere – Associação de Desenvolvimento Florestal, refere ao Conta Lá a dificuldade com “grandes extensões abandonadas e muita floresta por ser limpa” num trabalho onde faltam mãos para limpar.
Também o presidente da Câmara de Vila de Rei admite ao Conta Lá não haver “maquinaria que chegue nem empresas florestais que cheguem” para limpar a floresta, sobretudo depois dos danos deixados pelas tempestades de fevereiro e consequente combustível que ainda falta tirar.
“O que iremos fazer é realizar concurso públicos nacionais de forma a atrair os empreiteiros florestais não só aqui da zona mas que venham fora de região, ganhando escala, para limpar as zonas prioritárias identificadas”, revela o edil, que admite um “desígnio muito grande e sobre o qual temos de ser claros: não vamos conseguir tudo pronto até à época de incêndios”.